sexta-feira, novembro 28, 2008

- o carteiro -
what to wear VII (1850-1900):
No final da primeira metade do século XIX assistiu-se a um ascetismo inexplicável na moda, principalmente na feminina. Mas a segunda metade do mesmo século foi diferente da primeira por fazer ressurgir a feminilidade, não sem algum saudosismo e admiração pueril pelo passado, ao mesmo tempo que dava passos em direcção a uma semelhança de estilos, não obstante nunca o ter sido entre géneros. Aquela que foi a década das grandes revoluções (década de 40 do século XIX), inaugurou a segunda metade do século com uma revolta da esquerda, o que trouxe para alguns países a primazia de uma direita tirana. Curiosamente em Inglaterra e na França isso traduziu-se numa vitória da burguesia. Note-se que foi em Inglaterra que se deu a Exposição Universal de 1851 que prometia paz e prosperidade através das inovações tecnológicas (o tempo veio provar que eram falsas esperanças) e que em Londres proliferavam as casas com fachada, pórtico e duas colunas à entrada, na maioria ocupadas por membros da burguesia inglesa para se concluir que o homem de negócios já não vivia por cima da loja (na Idade Média as pessoas mais pobres dormiam no compartimento ao lado dos currais para ficarem mais quentes). Toda esta prosperidade, pelo menos nestes dois países, resultou na mesma medida em elaboração e preocupação com os trajes. Esta preocupação era tal e estendia-se a todos os quadrantes sociais, que no início da segunda metade do século XIX as criadas e as patroas vestiam-se de forma mais semelhante do que há apenas 30 anos atrás. Num Domingo era praticamente impossível distinguir a criada da patroa.

As saias que eram muito apagadas, quase abafadas pelos redingotes, foram ganhando volume através de um número crescente de anáguas (tipo, varina da Nazaré com sete saias. Já experimentaram contar? São mesmo sete). O pior era que o grande número de anáguas usadas dificultava os movimentos e era pesada. Por isso as anáguas foram substituídas pelas primeiras crinolinas. Já antes com a farthingale e com os panniers no século XVIII se tinha feito um ensaio das saias armadas, mas só as crinolinas produziram este efeito e tinham na sua base estudos científicos. Ainda que nada práticas, estes acessórios eram fruto de novos materiais e técnicas que permitiam arcos flexíveis e peças mais leves cozidas directamente à anágua. A crinolina tinha uma vantagem para as mulheres: debaixo dela e da saia, as mulheres tinham as pernas muito mais à vontade. Mas trazia inconvenientes: é que bastava um pouco de vento para provocar um desequilíbrio e a senhora mostrar uma pernoca. Como a época de mostrar as pernas ainda estava longe e isso era inadmissível em qualquer mulher, fosse ela uma herdeira ou uma meretriz, as senhoras começaram a usar umas “pantalonas” por baixo da crinolina. Até as crianças usavam as pantalonas, mas como as suas saias eram mais curtas, o efeito era ridículo.



Como em todas as épocas a moda também se fez de exageros e no final da década de 50, as crinolinas criavam uma amplitude tão grande nas saias que duas senhoras não se podiam sentar no mesmo sofá ou conversarem perto ou mesmo entrar numa sala pela mesma porta, ao mesmo tempo. As senhoras rodeavam-se de renda e atrás vinha um escaler, um acompanhante masculino, que tinha de ficar na sombra da sua figura. A crinolina tinha uma carga erótica forte e foi por isso que as mulheres não a abandonaram com facilidade. Por um lado era uma forma de distingui-las dos homens, numa altura em que a sociedade era dominada por eles. Se uma mulher se apresentasse como um ser estranho, essa estranheza iria chamar até si os outros, principalmente homens. Mas ela mantinha-se inacessível pela impossibilidade de proximidade que a crinolina criava. Um homem podia admirar e desejar uma mulher, mas fisicamente, não se podia aproximar dela. A crinolina aumentava a zona da anca, criava a falsa ilusão de anca larga que como se sabe, pelo menos é o que dizem os cientistas, atraem os homens que querem procriar. Por outro lado, era como um abat-jour mal encaixado, um balão numa marcha popular: abanava-se aqui e ali, movia-se e por vezes deixava ver o tornozelo da senhora. Eis o grande tormento do homem do século XIX; o tornozelo feminino que o corrompe na sua seriedade. Por isso nesta altura a taxa de natalidade em Inglaterra subiu e muito. Também por isto as mulheres passaram a calçar botas e botins até meio da canela e apertadas aí.








Deve ter existido uma relação natural entre a crinolina e o Segundo Império que foi o início de uma era próspera, ambiciosa, mas ao mesmo tempo dissimulada e feita de aparências. A principal representante e defensora da crinolina foi a Imperatriz Eugénia e este facto não é irrelevante uma vez que deverá ter sido a última personalidade real a ter algum efeito sobre a moda. É nesta altura que começam a aparecer os estilistas homens. Até cerca de 1860 havia estilistas, mas eram todas mulheres. Acontece que a moda se tornou algo de tão importante, cerimonioso e determinante mesmo na vida das pessoas, que as mulheres influentes começaram a deixar o seu corpo e o seu dinheiro ao critério de uns quantos estilistas homens que também ganharam o seu estatuto. Até aí eram os estilistas que iam a casa das clientes e a partir da Imperatriz Eugénia (excepto para ela e para as suas acompanhantes), as mulheres deslocavam-se ao atelier de costura. Isto faz do trabalho do estilista quase uma arte pois com os pintores, passada a época dos pintores de corte, eram as encomendas que iam ter com os artistas e não os artistas que iam em busca deles, excepto, claro, nos concursos. No entanto o desenho de moda ainda era um pouco rudimentar. Estilistas como M. Worth que não sabiam desenhar, tinham sempre a mesma base de trabalho; colocavam braços e cabeças posteriormente, feitos a partir de litogravuras. (um vestido que concebeu para Elisabeth da Áustria)



As mulheres não abdicaram facilmente da crinolina, nem mesmo quando tiveram outras alternativas. Na América, por exemplo, estas modas não eram tão bem aceites e em 1951 a senhora Bloomer chegou mesmo a deslocar-se em digressão à Europa para mostrar o novo traje que dava mais liberdade de movimentos às mulheres, embora em meu entender retirasse toda a piada do jogo de sedução. O traje Bloomer que acabou por ser parcialmente aceite no fim do século quando todas as pessoas se dedicavam ao desporto, principalmente ao ciclismo, consistia num corpete mais simplificado do que aquele que era usado e uma saia ampla e um pouco abaixo dos joelhos. Por baixo das calças, para tapar o que sobrava de perna propunha-se umas calças largas, mas apertadas no tornozelo deixando uma barra de renda em baixo. Ora esta sugestão surtiu efeitos indesejados: os homens tinham medo de perder o poder que lhes era conferido pelo uso de calças e as mulheres não queriam abandonar a sua feminilidade, embora algumas mulheres já tivessem os seus trajes um pouco masculinizados. Conclusão: o movimento Bloomer fracassou redondamente.


A crinolina também não teve muito mais tempo de vida, pelo menos nos moldes conhecidos. Teve o seu auge na década 60 do século XIX que como vimos foi pródigo em crinolinas a fazer círculos perfeitos com a mulher ao centro, corpete justo, cinturas finas e xaile, novamente, para se estar ao ar livre. As senhoras usavam chapéu, mas o tamanho do chapéu diminuiu consideravelmente a agora era apenas uma cobertura no cimo da cabeça (afastada da testa para se poder ver o cabelo), e apanhada debaixo do queixo por uma fita. Depois, em 1868, a crinolina passou a ser deslocada um pouco para trás, deixando a parte da frente do traje e do corpo feminino liberto para conversas e proximidade física com o outro. Para o traje não ficar com mau aspecto amontoava-se atrás uma grande quantidade de tecidos que cobriam a armação e faziam uma cauda. Mais tarde a crinolina deixou de ser usada, mas para conferir aquele aspecto de rabiosque grande (que também era sinal de fertilidade e agradava os homens), optou-se pelo uso das anquinhas, mas desta vez já com algumas inovações que tornaram o seu uso muito mais simples.





A derrota da França em 1870 (frente à Prússia), e alguns problemas (deposição de Napoleão III, início da Terceira República) fizeram com que Paris se afastasse da vanguarda da moda por algum tempo. De facto o que se nota é que não há continuidade na evolução (deslocação da crinolina para trás, substituição da crinolina por anquinhas e previa-se o abandono destas), mas uma estagnação, embora os vestidos da década de 70 nos pareçam muito luxuosos. Para esta ideia e para a elaboração nas vestes femininas muito contribuiu a invenção da máquina de costura e a invenção de tintas à base de anilina que permitiam novas cores, enquanto a máquina de costura permitia novos modelos e cortes. Podíamos pensar que daqui viria boa coisa, mas a verdade é que as saias e os corpetes tinham cores diferentes e berrantes e como as senhoras se sentiam inspiradas pela máquina de costura, começaram a criar vestidos cheios de cortes de tecidos diferentes. Um vestido podia ser uma autêntica colcha de patchwork e nunca, segundo os críticos, as mulheres se vestiram tão mal. Os vestidos podiam ser de uma só peça (estilo princesa que permitia variações como a polonaise, o vestido de Jersey lançado por Mrs. Langtry e o vestido para o chá) ou com saia e corpete separados, o que na minha opinião já não é um vestido. As senhoras usavam também uma jaqueta para passeio, uma jaqueta curta, mas eram-lhe adicionadas basques como cortinas de forma a que parecia que a saia ou a parte de baixo do vestido tinha uma sobre-saia. Mais tarde, já em 1876 as mulheres começaram a usar uma armadura que mais não era que um espartilho dos quadris. Junte-se a isto o espartilho tradicional e a anquinha traseira para termos mulheres muito mal dispostas. Se não eram, tinham todas as razões para serem.



Os chapéus voltam a cair sobre a testa e os penteados usam-se altos, no topo da cabeça e depois a cair em cachos ou tranças. Como era necessário muito cabelo para fazer este tipo de “corte” e não havia assim tanto cabelo disponível foi necessário importar cabelo para fazer frizettes e scalpettes.

No final da década de 70, a anquinha tal como era usada, deixou de estar na moda, mas não foi banida. Ocupou outra posição mais abaixo no vestido o que fazia com que os vestidos possuíssem caudas muito longas. Mas com os ombros à mostra, o espartilho cada vez mais apertado e uma saia que travava os movimentos na zona dos joelhos, muitas eram as revistas e ilustrações que ridicularizavam as mulheres que temiam em seguir a moda. As anquinhas subiram um pouco mesmo no rabiosque e depois o vestido caía sem mais armações. Começava aqui também um movimento de oposição aos trajes da época liderado por John Ruskin e pelos pré-rafaelitas que propunham um estilo completamente diferente. Segundo os pré-rafaelitas as mulheres estavam demasiado adornadas e despidas e até porcas, uma vez que na opinião da Irmandade as anquinhas não eram muito higiénicas. (De facto não eram; faziam transpirar muito e com o vestido muito apertado na zona dos joelhos não permitiam grande liberdade de movimentos nem arejamento. No entanto algumas marcas começavam já a usar a tecnologia para fazer anquinhas respiráveis e para substituir a crina de cavalo e outros materiais, por materiais mais fáceis de adaptar aos movimentos normais de uma mulher). As queixas do movimento pré-rafaelita foi transformado em movimento por parte de um grupo de intelectuais, apelidado de Traje Racional, uma proposta um pouco utópica e pretensiosa como podemos ver pelo nome. No essencial eram iguais às roupas da época, mas menos apertadas: as mangas eram em balão, os vestidos não exigiam o uso de espartilho, os sapatos não tinham salto e os cabelos eram bastante simples. Quanto ao traje masculino privilegiava os calções até aos joelhos, casaco de veludo, gravata informal e chapéu wideawake. Para vermos este traje basta olhar para Oscar Wilde que foi um defensor do movimento Traje Racional. Apesar de ter sido um movimento muito satirizado acabou, ao fim de algum tempo e insistência por ter algum efeito, à medida que as mulheres também começaram a ter uma vida mais activa. Resultado disso foi o abandono do espartilho rígido.

Como foi dito, o desporto começou a ter muita influência neste final de século e a ser praticado tanto por homens como mulheres como vimos em relação ao traje Bloomer. Como os trajes eram muito formais para praticar desporto alguns deles tiveram de ser mudados para algo mais prático. Para praticar tiro, por exemplo, os senhores podiam usar um casaco Norfolk, com pregas verticais e calções largos até aos joelhos e polainas. O traje de críquet era o mesmo de hoje em dia à excepção das cores que nesse tempo ainda podiam ser berrantes. No ciclismo ainda se usavam as bicicletas com a roda dianteira maior que a posterior e os trajes, por razões óbvias tiveram de ser adaptados à condição feminina. O ciclista usava um casaco muito justo com ar militar, calções pelo joelho igualmente justos e boné pillbox. Levava consigo também uma corneta para advertir os transeuntes da sua presença. Quanto às mulheres ciclistas, viram já no final do século as vantagens do traje Bloomer; como não podiam usar calças, usavam saias bifurcadas ou knickerbockers. Independentemente isto permitir às mulheres realizarem actividade física sem mostrarem as pernas, o traje foi achincalhado na praça pública e na Igreja. Mesmo assim, algumas mulheres continuaram a usá-lo e muitas preferiram trocar as rendas pelo traje cinzento muito parecido com o dos homens, mas na versão “saia”. Era um traje constituído por saia, camisa justa e com gola levantada como a masculina e um casaco um pouco mais feminino, mas um casaco sem qualquer adorno e em cores que até aí as mulheres não usavam.


Os homens continuavam, fora da actividade física, a privilegiar o casaco: o chesterfield, o top frock, o ulster e o inverness, gladstone e albert. À noite os senhores usavam o dinner jacket e quando as senhoras se retiravam mudavam para o smoking jacket, igual ao outro, mas almofadado, não me perguntem porquê. No geral os trajes masculinos adquirem um aspecto mais informal à medida que nos aproximamos da década de 90 e do fim do século também. Usar casaco era mais do que uma questão de moda; era uma questão de moral. Um homem que saísse de casa sem o casaco vestido, independentemente de ter consigo o sobretudo, era mal visto. Quanto às calças no início da década eram largas em cima e apertadas em baixo, a afunilar e alguns jovens começaram a usá-las com a bainha dobrada para fora. Isto era admitido aos jovens, mas não aos homens de posição social como o visconde Lewisham que em 1893 compareceu na Câmara dos Comuns com este modelo. Algo que não mudou foi o colarinho que se tornou tão apertado como os dandys haviam usado ainda na primeira metade do século. Podiam no entanto ser adornados com lenços ou gravatas que muitas vezes já vinham prontas a usar.


Relativamente à moda feminina, depois de se ter abandonado as anquinhas e as rendas, optou-se por um corte justo nas ancas, mas enviesado, quase em forma de sino. Permanecia no entanto a cauda, mas no geral o visual era bastante recatado: blusas de renda em gola alta, com um laço ou folhos a cair do pescoço, as mangas eram em balão (chegou mesmo a existir um certo exagero no tamanho das mangas que levou a que muitas mulheres usassem pequenas almofadas para obter o volume pretendido. O mais estranho era que, independentemente do teor das peças de teatro, este era o tipo de figurino que vigorava no guarda-roupa de cada teatro.) O uso de renda nas blusas era muitas vezes estendido a todo o vestido quando se tratava de comparecer numa cerimónia que decorria à noite. No dia, a renda era aplicada na gola, mas também nos punhos e na anágua que ao ser mostrada por uma senhora quando esta pretendia subir um degrau ou quando levantava um pouco mais a cauda do vestido para se deslocar, provocava calafrios (ou calaquentes) nos homens. Os chapéus continuavam pequenos e usados no topo da cabeça, para os passeios as senhoras usavam capas e pelerine sendo que algumas capas tinham uma gola do tipo médici, os sapatos e as botas de salto alto eram muito usados e senhora que se prezasse não podia esquecer as luvas compridas (às vezes com 20 botões) e o leque. As cores eram vivas e quase sempre destoantes e curiosamente, as senhoras gostavam muito do amarelo.



O domínio francês estava solidificado e a França pensava mesmo aliar-se à Rússia, o que fez com que muitas francesas, influenciadas pela moda e necessidade russa de usar peles, começaram também a usá-las, quando antes as peles eram um privilégio masculino. Uma brisa de liberdade chegava à cidade com a presença de novos-ricos sul-africanos, mas o novo século foi incompreensivelmente o século de todas as guerras.

2 Comments:

Anonymous maria said...

Pobres mulheres somos uns autênticos yôyôs.
sou mesmo antiga pois tb gosto de amarelo!

muito obrigada

29/11/08 1:07 da manhã  
Blogger beluga said...

e isto ainda não é nada. vem aí um sob saia, desce saia, põe peito, tira peito, corta o cabelo, deixa crescer...
tenho aprendido muito a fazer estes post e obrigada eu por os ler.

29/11/08 1:17 da manhã  

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