quinta-feira, abril 27, 2017

27.04.2016

quarta-feira, abril 26, 2017

ultimamente sinto que trabalho nos têxteis Penélope:

"Faça de dia, que alguém desfará à noite."
- original soundtrack -



















(Flashing Lights, Kayne West)
- não vai mais vinho para essa mesa -

se era bom de mais para ser verdade, então é porque não era verdade.
- o carteiro -
 
durante muitos anos, o Vermeer esteve esquecido. Foi "big in Japan" (mais "big in Delf") no tempo em que foi vivo e depois a História da Arte esqueceu-o. Só no século XIX é que o historiador francês Theophile Gautier que catalogou as suas obras e quase de imediato os críticos e autores desse tempo começaram a comparar a pintura de Vermeer à fotografia, uma forma de expressão artística acabadinha de chegar. Esta comparação tinha de facto razão de ser: Vermeer não pintava só a realidade, ele pintava-a com realismo um realismo por vezes tão pormenorizado que aquilo só podia ser obra de uma máquina. E era; era obra da Câmara Obscura. Não se assustem, outros antes de dele também havia usado este truque. O Caravaggio, por exemplo. Nunca percebi bem como funcionava a Câmara Obscura. Quer dizer, não percebo como de facto se forma uma imagem invertida a partir de algo tão simples, mas a verdade é que forma. Essa imagem invertida, que se projectava numa superfície lisa, era depois delineada, pintada.
 
Mas há outros métodos e menos sofisticados. Vermeer definia - penso eu - o local do ponto de fuga no quadro e colocava um alfinete no mesmo. Fazia depois confluir as linhas de fuga para esse ponto. Vejamos as linhas da janela e do pavimento que "fogem" para esse ponto onde está o alfinete. Em alguns casos o buraco do alfinete ficou lá. Já havia referido isso aqui, mas percebi que havia mais buracos de alfinetes. Aliás, cerca de metade das suas pinturas ainda possuem os buracos dos alfinetes. Para encontrá-los é necessário uma lupa e uma régua para ver qual o ponto para onde "fogem" as linhas. Como não tinha nem uma nem outra, acabei por andar umas poucas de horas, no Google Art Project, à procura dos buracos nos locais mais prováveis tendo em conta as linhas de fuga.
 
Cheguei até estes três casos. Espero que gostem, que se cuidem e se souberem de mais alguma coisa, avisem: publicamos isto num livro em papel couché com uma capa brilhante com letras em itálico. Será um sucesso, seremos entrevistados pelo Luís Peixoto e usaremos óculos de massa pretos e camisolas de gola alta. 
 
[1]   



















Johannes Vermmer
The Art of Painting
1665-67
Kunsthistorisches Museum, Viena


































[2]

 
Johannes Vermeer
A Lady at the Virginals with a Gentleman
1662-65
Buckingham Palace, Londres









































[3]

















Johannes Vermeer
A Lady Drinking and a Gentleman
c. 1658
 Staatliche Museen, Berlim



























- o carteiro -

mais uma vez, desgracei-me

























































 

quarta-feira, abril 19, 2017

p*** estúpida

terça-feira, abril 18, 2017

video

segunda-feira, abril 17, 2017

não me apetece comer
- original soundtrack -












(...)
And how can you mend a broken heart?
How can you stop the rain from falling down?
How can you stop the sun from shining?
What makes the world go round?
How can you mend a this broken man?
How can a loser ever win?
Please help me mend my broken heart and let me live again
(...)

(How can you mend a broken heart?, Al Green)

PS - Al Green, faz-me um filho. Ou dois. Assim ajudavas-me a cumprir a obrigação social de ser mãe. Pois uma mulher só é verdadeiramente mulher quando é mãe. Até aí é homem ou líquene. Por isso, faz-me um filho ao som do Let's Stay Together, frente à lareira, para cumprir todos os clichés a que uma iniciativa dessas tem direito. Com champanhe e morangos. Eu fico com os morangos; o champanhe dá-me gases.

- não vai mais vinho para essa mesa -

Numa destas tardes aconteceu-me uma coisa que, não sendo "simplesmente bela", dava uma aguarela arte povera, se isso existisse. Mas para explicar esta coisa, é necessário contextualizar. Conheci, há uns dois anos, no meu local de trabalho, uma pessoa que, após algumas conversas e quando lá aparecia ao fim da tarde, começou a "levar-me" a casa. Saíamos dali os dois juntos, na conversa: eu chegava ao meu destino e ia à minha vida e ele, calculo, seguia o destino e a vida dele. Numa destas visitas a pessoa em causa - homem, mas não o mesmo deste post (não pensem que é mérito meu; é só a Primavera e a mimetização, por parte de alguns humanos, de rituais de acasalamento animais) - convidou-me para um café. Aceitei e como uma dama, deixei-o pagar. Pois agora ele aparece-me lá todas as sextas feiras, à hora de fecho, na esperança de outro café. Eu, não obstante toda a simpatia dele, não estou para aí virada. que maçada quererem que eu seja de companhia. e numa destas vezes, em que não estava mesmo nada para aí virada, respondi que não, que não ia pelo mesmo caminho, ia até no sentido oposto.
 
"ai é?", perguntou/observou ele
"sim. vou... à ginástica", disse eu que pensei que o moço desmobilizaria e diria: "ok, então eu vou indo. até uma próxima". mas ele saiu-se com esta:
"eu acompanho-a. posso apanhar metro em qualquer paragem"
 
[m****, m****, m****! agora vou ter mesmo de pegar no saco e ir na direcção do ginásio. m****!]
 
"então vamos"
 
no caminho, enquanto ele falava, eu pensava
 
[Pode não ser nada disso que estás a pensar. Ele pode apenas sentir-se sozinho e necessitar de companhia. Mas chiça, porra! Não quero, não me apetece. Apetece-me estar sozinha, ir ao cinema ou andar sem destino, ler ou ficar a olhar para o balão. Mas não me apetece sair com ele. Não com ele. Porque é que me meto nisto? Porque é que não lhe digo logo que não? Porque ele pode estar sozinho e ficaria magoado com a minha pedantice...]
 
levou-me mesmo à porta do ginásio. e eu, que já tinha ginasticado à hora de almoço, voltei a ginasticar só para não ir tomar café com ele. se era para ter dose dupla, mas valia comeres chocolates, pequena
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

antes:

Levou-se a louçana
levou-me a velida
vai lavar cabelos
na fria fontana.
Passa seu amigo
que lhe bem queria;
a cerva do monte
a água volvia.
(Pedro Meogo)

depois:

Levantou-se a velida
levantou-se alva
e vai lavar camisas
eno alto.
Vai lavar camisas
levantou-se alva
o vento lhas desvia
eno alto.
(D. Dinis)
- o carteiro -

em conversa com um amigo diz-me ele:
"no futuro as pessoas vão ser ainda mais bonitas."
e sim, faz sentido. desde que deixou de haver casamentos consanguíneos (que originavam deformações. vejam os Habsburgo, com prognatismo mandibular e inúmeras doenças), desde que as pessoas passaram a ter luz eléctrica em vez de velas (menos poluição, menos doenças respiratórias), desde que passaram a ter mais cuidados de higiene e passaram a ter mais informação... tornaram-se de facto mais saudáveis. e a saúde - embora não seja sinónimo de beleza - é um passo para ela.

Não sei o que é sinónimo de beleza, nem sei o que é a beleza, mas sei que há vários tipos de beleza e que o que se considera belo não é igual para todos (embora existam características físicas e de carácter commumente aceites como parte daquilo que se pode considerar "belo"). O Dostoievsky dizia, n'"O Idiota", que "a beleza salvará o mundo", o Stendhal dizia que a beleza era a "promessa de felicidade" e o Voltaire dizia que a solidariedade da espécie fazia com que o sapo achasse a sapa o paradigma da beleza. Penso em tudo isto quando passeio e vejo que de facto, as miúdas do futuro, e as de agora, são muito mais bonitas, ou bonitas e em maior número do que na minha altura. Por "minha altura" refiro-me ao período que vai dos 15 aos 25 anos, que é o período, em que, segundo os gregos, as mulheres atingiam o seu pico de beleza. Obviamente não me posso comparar com miúdas de 15 anos. Nem mesmo com as de 25 anos. Isso seria limitar a beleza a uma faixa etária e dizer igualmente, em última instância, que as mulheres mais velhas não podem ser belas, o que não é verdade. Vejamos as obras do Alberti. Ele dizia, em relação à arquitectura, que o belo era bom. Mas não dizia que o belo era, para além de bom, novo. Acredito por isso que a beleza está, para além de medidas faciais e proporção óssea, na inteligência, na sensibilidade, na generosidade, na independência, no sentido de humor.  Se para os gregos era assim (sou uma helenística), para mim também é assim. Mas este post não é sobre a beleza interior, pois para essa não há imagens e necessito de imagens para ilustrar os meus posts ou ninguém os lê (ninguém os lê, de qualquer forma...). É antes sobre a figura, o rosto, o que é visível. E perecível. Pois no fundo, de que serve a beleza física?: é só um aglomerado de átomos e células a morrer um bocadinho a cada dia. E no final, por mais belos que sejamos, acabamos a cheirar mal e a exalar por todos os buracos os inúmeros gases e líquidos pestilentos de que somos compostos.

Apesar de tudo, os padrões de beleza não mudaram assim tanto. Ora vejamos: uma mulher bela no ano 1000 teria provavelmente os mesmos traços físicos que contribuíam para o reconhecimento da sua beleza, que teria uma mulher no ano 2000. Abundam na internet vídeos sobre os padrões de beleza e a sua mudança ao longo dos séculos. É verdade que as medidas mudaram, e continuam a mudar. Mas é também verdade que a Vitória de Samotrácia vai ser sempre bela. (Mais ou menos do que um carro de corrida... Deixo a minha opinião comigo.) E não digo isto porque sou uma helenística, mas porque acredito que a Vitória de Samotrácia, com ou sem rosto, era bela.

Há que distinguir aqui beleza de moda. Era moda, nos anos 60, as mulheres serem muito magrinhas e usarem minissaias. A Twiggy, que personificava essa tendência, era bela. Mas nem todas as mulheres magras, de cabelo curtinho e olhos grandes, de minissaia como a Twiggy, eram belas. Outro exemplo: no início do Renascimento a moda eram as testas grandes. Era provável que algumas mulheres que "depilassem" a testa fossem belas. Mas nem todas eram, mesmo seguindo essa moda. A moda, as tendências, mostram-nos regras de beleza que, mesmo seguidas, não nos levam a ser belas. Porque ser bela é mais do que isso.

Não gostaria de falar muito de maquilhagem, pois não é a minha especialidade e este post refere-se a outras coisas, mas vou começar exactamente pela maquilhagem. A Bíblia tem uma mulher que se pinta, que se maquilha para obter o que deseja. Essa mulher é Jezabel e no episódio e que "entra" é, obviamente a pecadora, a meretriz, enfim... a má da fita, devidamente castigada!*Antes mesmo disso, as egípcias pintavam-se, pintavam os olhos. Só que a forma de fazê-lo era com produtos com chumbo que levavam a problemas nos olhos e, em último caso, a envenamento por chumbo. Bem, pelo menos morriam belas. Quanto aos banhos de leite de que se fala - e que supostamente - eram o truque de beleza da Cleópatra, já aqui disse que não era bem assim: o leite no banho não serviria totalmente para tornar a pele mais macia e a mulher mais bela, mas para tornar a água opaca. Umas gotas de leite na água do banho seriam o suficiente para a torna-la transparente e permitir que um servo chegasse perto da sua senhora sem lhe ver o corpo na água transparente.











Tutmés
Busto de Nefertiti
1345 a.C.
Neues Museum, Berlim

Passarei à frente os produtos de beleza como o leite para tomar banho ou o sal para exfoliar, pois isso são truques que ainda hoje usamos através dos produtos que consumimos, todos eles à base de "olive oil", "óleo de Argão", "leite de burra" (os meus sabonetes são assim: a burra sou eu)... Não passo no entanto à frente de alguns truques. Na Roma Antiga, por exemplo, as mulheres usavam giz para cobrir o rosto. Porquê? Porque ter uma pele branca era sinónimo de ser rico, ou pelo menos de ter posses suficientes para não trabalhar no campo: o trabalho no campo, sob o Sol mediterrânico, curtia a pele. Só os mais pobres trabalhavam a terra, logo só os mais pobres eram "morenos". Esta ideia permaneceu sempre presente até, mais ou menos até ao momento em que se descobriu que o Sol fazia bem. Penso que terá sido praticada até ao início do século XX, quando a paz aparente antes da Primeira Guerra Mundial tornava mais apreciada e bem aceite uma ida à praia como parte de uma vida social activa e fashion. Ora uma pela branca é uma pele transparente que permite o vislumbre de veias. Quem não conseguia esse pináculo da perfeição, simulava-o, desenhando riscos azuis ao longo da pele. A monocelha (a.k.a. Frida's way) estava na moda e era um sinónimo de beleza, bem como os dentes brancos, levando a que algumas senhoras usassem dentaduras postiças, porém imaculadas. 

"Monocelhas"



















Retrato Fayum
Século I a III





















Retrato Fayum
Século I a III

Na Idade Média (e a Idade Média compreende o tempo que vai do século V ao XV) ser bela era ser pálida (pelas mesmas razões atrás expostas), ter pele uniforme (sardas ou manchas eram consideradas castigo divino por uma vida sexual mais activa do que aquela que os padrões previam), um cabelo naturalmente claro (quase loiro, mas não obrigatória nem totalmente), escondido ou até inexistente, ombros estreitos, seios em forma de maçã (redondos e pequenos) e ventres protuberantes. Como todas as mulheres até aí e daí para frente, as mulheres da Idade Média usavam produtos à base de plantas para se sentirem limpas e belas. Mas alguns ingredientes íam mais longe e incluíam gordura animal e malcheirosa que originava pastas várias, todas elas demasiado espessas e gordurosas. No que diz respeito ao cabelo, o mesmo era raspado, arrancado com uma pinça ou simplesmente depilado através do uso de uma mistura de vinagre e cal. Por vezes, com o cabelo, ia também a pele... O restante cabelo era escondido por véus nos países mais frios enquanto nos países com clima mais ameno, era permitido às senhoras usá-lo com tranças, mas nunca solto. Só as mulheres de má vida, as mulheres muito jovens e as camponesas usavam o cabelo à vista e solto. A questão não era só de beleza, mas também moral: se o cabelo era, como ainda é, sinónimo de beleza e veículo de sedução, mostrá-lo era mostrar o caminho ao diabo, cair em falta mortal. O mesmo acontecia com as sobrancelhas que eram cortadas muito curtas ou arrancadas de forma a ficaram quase imperceptíveis ou até, desaparecerem. O cabelo louro era conseguido através de urina de ovelha, açafrão ou cebola. Só coisas boas, portanto! Depois era ficar ao sol com um chapéu que cobrisse o rosto, mas não o cabelo...



















A pele pálida não era no entanto, natural. Era permitido às mulheres - e, atendendo a São Tomás de Aquino, aconselhado - o uso de maquilhagem, mas nunca em excesso. Seguindo a mesma linha de Ovído, São Tomás de Aquino aconselha à mulher o uso de maquilhagem em quantidade suficiente para agradar ao seu marido, mas nunca aos maridos das outras. No século XIII, o livro "L'ornement des Dames" aconselha uma base alternativa aos produtos com chumbo, base essa composta essencialmente por farinha e água. A receita consistia em deixar, durante 15 dias, a mais pura farinha de trigo misturada com água. Após esse tempo, retirar a pasta e deixá-la secar num pano, sendo que, após a pele limpa, o pano deveria ser aplicado na mesma. Enfim, truques que hoje só serviriam para fazer cola caseira que para mim é a única coisa resultante de farinha e água... Tirar as referidas marcas como sardas ou sinais "era possível", esfregando pedra no rosto, aplicando "sumo de lírio", pepino, ou sumo de morango. Como diz aquela anedota: "se faz bem por fora, faz bem por dentro". Ou então, deixar duas sanguessugas actuar junto às orelhas: as sanguessugas sugavam o sangue do rosto e claro, este ficava mais pálido... Apesar dos olhos não serem pintados na maior parte dos casos (como podemos ver em grande parte das pinturas da época) as senhoras não queriam passar despercebidas e por isso borrifavam os olhos com o líquido de uma planta mortal de nome Belladona que fazia as pupilas dilatarem. O que acho estranho nisto é que quando uma mulher se sente sexualmente excitada as pupilas também ficam dilatadas... Não estou a imaginar as mulheres da Idade Média a borrifarem os olhos com este líquido e pensarem: "deixa-me lá parecer uma gata com o cio". Quanto a batom, como se sabe, era quase inexistente. Para dar uma corzinha utilizavam-se bagas vermelhas esmagadas ou então limão, já que o limão "excita" os lábios.
Testa alta, sobrancelhas finas, tez branca, seios pequenos, firmes e redondos:




















Jean Fouquet
Melun Diptych: Virgin and Child Surrounded by Angels (pormenor)
c. 1450
 Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antuérpia

O uso do chumbo nos produtos de beleza prolongou-se até ao século XIX. Mas quem não usava risco nos olhos ou produtos com chumbo, achava a morte de outras formas. No século XVIII, XIX, os românticos achavam que uma mulher bela era uma mulher com um ar débil (não necessariamente doente). A debilidade era sinónimo de sensibilidade aos fenómenos naturais, à beleza em si, aos sentimentos dos outros, aos sofrimentos. Enfim, a beleza era o Sublime. Mas o Sublime é um pouco o extremar de posições do Belo. O Sublime é aterrador, o Sublime pode ser encontrado na morte, nas grandes manifestações naturais, num tsunami, num vulcão. Por isso, estas mulheres do Romantismo mantinham-se também elas num limbo aterrador, entre a vida e a morte algo que acontecia devido à ingestão de pequenas quantidades de arsénico. Para além de torná-las mais pálidas, devia produzir nelas sensações estranhíssimas. E se a palidez era sinónimo de beleza, uma alma sensível - mesmo que fosse à custa de drogas - não era menos.

O século XIX foi, provavelmente, o século mais sujo de sempre, já que à sujidade natural (resultado da falta de acesso a condições de higiene básicas e desconhecimento) se juntou a poluição. Era necessário combustível não só para iluminar as casas, mas fazer a indústria trabalhar. O ar estava constantemente poluído com partículas de carvão que caía nas roupas, no cabelo, na pele das pessoas. A par disto e para ajudar à festa, os vestidos pesavam cerca de 18 quilos e a sua delicadeza tornava-os pouco laváveis. As roupas (exteriores) eram tão pesadas que as interiores (para facilitar a excreção de urina e fezes) não tinham entrepernas. Fazer xixi de pé era hábito; menstruar, uma dor de cabeça. As mulheres que não queriam, simplesmente, deixar o fluxo menstrual fluir limpando-se com os próprios vestidos (geralmente de cores escuras), podiam aplicar na zona vulvar lã de carneiro após a unção com um pouco de banha; aplicar algodão em bruto, enchumaçado como um tampão; esponjas marinhas ou uma miríade de panos que não podiam ser lavados (porque a lavagem implicava a secagem e a secagem implicava que alguém os visse) e que eram seguros ao corpo quer pela própria compleição feminina, quer por inúmeros instrumentos como o cinto menstrual:



















Mais uma vez queria-se o corpo livre de pelos. Não falei muito disto, mas apesar de a maior parte das mulheres ter pelos que se calhar nunca eram arrancados ao longo da vida, o ideal de beleza foi sempre outro. Vejamos as mulheres consideradas belas na pintura ocidental como a Vénus de Botticelli. Estamos em crer que aquela mulher teria a depilação feita, mesmo nas partes pudibundas. No entanto (e porque raspar a linha da testa não é a mesma coisa que, todos os meses, raspar as pernas, as virilhas, as axilas...) acredito que a maior parte das mulheres, mesmo as de posses, possuíssem muitos pelos até porque o puritanismo não seria muito dado a sexo louco e nu. Era natural que ao longo de uma vida um marido nunca visse a sua mulher Nua. nem ela própria se viesse nua já que as túnicas de banho não permitiam que uma mulher visse o seu corpo nem que, principalmente, o tocasse. Havia produtos depilatórios na época que provavelmente seriam venenosos e altamente perigosos. Porque a parte do corpo à mostra era o peito, o rosto e os braços, eram essas as partes depiladas. Em tudo o resto, a natureza fluía.

No que diz respeito ao cheiro - que devia ser nauseabundo em mulheres e homens - havia muitas formas de disfarçá-lo. A melhor era através da aplicação de doses generosas de perfumes fortes em pastilhas para o hálito, pomadas, pó de talco... Tudo era perfumado.

Não se falou muito sobre o peso e a sua importância para considerar uma mulher bela ou não. O que vemos na Idade Média, e até no Renascimento é uma mulher que terá o seu peso normal e em alguns casos, acima do normal, mas que nunca é obesa. Aliás, as mulheres do Renascimento têm um corpo compacto. As mulheres de Rubens são de facto mais cheias - hoje seriam obesas - mas não acho que sejam a regra. Talvez o excesso de peso fosse sinal de saúde e de beleza, já que o mais habitual era o alimento não ser tão abundante como hoje em dia. Bem, isto para dizer que sim, de facto nesta época as mulheres mais cheias estão na moda e podem até ser consideradas belas. No século XIX no entanto, alcançar a figura certa era bastante difícil: as mulheres não podiam ser muito magras, mas também não podiam ser muito gordas. A gordura tinha de estar nos sítios certos e, nesta altura, os sítios certos estavam completamente errados graças ao uso do espartilho que deformava o corpo da mulher. O peito deveria ser cheio (peito de rola, como costumo chamar), mas a cintura muito apertada, muito acentuada e as ancas a acompanhar o peito. As mulheres magras devem então encher o vestido vivendo como uma lapa. As mulheres mais cheias (nos locais errados) deviam perder peso. Tal como agora, havia comprimidos para tal, todos eles com pouquíssima ciência. A pílula contraceptiva podia ser proibida, mas a cocaína ou arsénico nos comprimidos, não. Por essa razão, havia produtos como este:












As senhoras que quisessem mesmo resultados podiam optar por ingerir vermes de pequena dimensão que, instalados no intestino comiam a gordura ao mesmo tempo que cresciam, podendo alcançar os nove metros. Em seguida, bastava tomar outro medicamento e expelir, pelo ânus, o verme. Atente-se neste anúncio que propõe a ingestão de ténias higienizadas:




















Para além das inúmeras receitas para fazer rouge, blush e todos os outros produtos de maquilhagem, há algo a assinalar nesta época: a preocupação com o envelhecimento. Não havia ainda, nessa altura, produtos com nome estranhos como dimetilaminoetanol, resveratrol, desidroepiandrosterona, etc..., mas havia coisas muito estranhas como esmaltar a pele, um processo que envolvia, obviamente, o chumbo. A esmaltagem podia durar até 5 anos - desde que os hábitos de higiene da senhora em causa não fossem muito frequentes - mas como incluía o chumbo, eram frequentes as paralisias faciais por envenenamento, o que não era nada bom para a publicidade. As mais medricas poderiam recorrer aos wafers de arsénico para aplicar em casa e remover rugas e imperfeições. Era só vantagens...
Outro método, muito agradável, era dormir com finas tiras de carne crua no rosto ou aplicar uma mistura de gordura de ovelha, cera de abelhas, espermacete, azeite e carne de vitela, tudo isto embebido em lã de ovelha. Depois era só colocar no rosto, dormir com a máscara, esperar que o cão não a comesse durante a noite e rezar um Pai-Nosso para que a força da gravidade não fizesse o inevitável...


















*"Depois Jeú veio a Jizreel, o que ouvindo Jezabel, pintou-se em volta dos olhos, enfeitou a sua cabeça, e olhou pela janela." (2 Reis 9:30) Após a "queda" de Jezabel os cães comeram a sua cara, o que quase prova que de facto os cosméticos eram feitos à base de produtos de origem vegetal e animal.

Claro que a beleza física tem fascínio, mas acaba. A interior pelo contrário não necessita de máscaras malcheirosas, nem maquilhagem, nem cocaína.

PS: aos dois azeiteiros que hoje passaram por mim de motorizada enquanto caminhava e atiraram um: "vai devagar fofinha, ou o vento leva-te". Sabem que as mulheres não se medem aos palmos; nem na altura nem na largura, certo? Não necessito de ser alta e espadaúda para ser muito mulher. Mais mulher do que aquilo que vocês foram homens com o vosso comentário machista, sexista, jocoso, condescendente e totalmente fora de moda. Não me cansem a beleza.
- não vai mais vinho para essa mesa -

amiguinhos, como estão? já foram à praia, nestes dias de calor, ver as moças com as vergonhas de fora? eu não fui, mas sei três coisas:
- as moçoilas ainda estão branquelas;
- os modelitos são do ano passado;
- os modelitos não são lá muito quentes e a gente sabe que ao fim da tarde arrefece sempre;

Porque não quero que vos falte nada, deixo-vos mais um post desta saga, bem a tempo de vocês iniciarem a época balnear. beijos, abraços e cuidado com as correntes de ar.
 
conjunto para moças  que querem bronzear com elegância. e um drink!



















conjunto para moças que fazem muito crochet e têm lá em casa duas pegas a mais (duas pegas e não duas pegas)


















 
Conjunto para moças alegres e bem-dispostas que ficaram nos anos 60, chamam-se Luna ou Cinnamon e substituíram o Lexotan por uma "broca"



















conjunto para moças que se constipam com facilidade e gostam de ter as extremidades protegidas (protecção também para os pés)



















e por falar em extremidades, não esqueçam o nariz que é por aí que as gripes começam e o tempo ainda anda maroto...



 

sábado, abril 15, 2017

sexta-feira, abril 14, 2017

- não vai mais vinho para essa mesa -




























segunda-feira, abril 10, 2017

descobri num destes dias, em que andava, cabisbaixa, a "cheirar livros" na livraria, só para desanuviar o coração. ao ler isto, desanuviei e pensei que de facto havia coisas perfeitas:

A vida é bela, sem dúvida:
sobretudo por não termos outra,
e sempre supormos que amanhã se entrega
o corpo que já ontem desejávamos.

(Jorge de Sena, "O beco sem saída, ou em resumo...")
 

sexta-feira, abril 07, 2017

depois dos problemas profissionais da semana passada e dos familiares desta (não encontro palavras para dizer como o meu coração está. mãe é mãe), eis que surgem os tecnológicos já a anunciar a próxima semana.
estou a pensar mandar "talhar o ar", pedir a bênção a Sua Santidade, alinhar os chacras ou comer apenas as bagas do deserto e beber a água que o Senhor tiver a misericórdia de me dar. graças a deus, aleluia, aleluia. ide em paz e que o senhor vos acompanhe.

quarta-feira, abril 05, 2017

aquele momento em que o "tu" passa a "você", o carinho passa a condescendência, e os abraços tornam-se uma tarefa...
e eu penso: "que merda que eu sou".

quinta-feira, março 30, 2017

desculpem a ausência. tenho vivido uns tempos... chatos... no emprego: injustiças, o "disse-que-disse", terror psicológico, não saber em quem confiar. enfim, essas m*****. 

terça-feira, março 14, 2017

- original soundtrack -

sem tirar nem pôr


I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job,
And then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?

Two lovers entwined pass me by
And heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job,
And then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Oh, why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?

What she asked of me
At the end of the day
Caligula would have blushed
You've been in the house
Too long, she said
And I naturally fled
In my life why do I smile
At people who I'd much rather
Kick in the eye?

I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
You've been in the house
Too long, she said
And I naturally fled
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?
(Heaven knows I'm miserable now, The Smiths)
- o carteiro -
Fortuny, Carpaccio e Proust (não necessariamente por esta ordem)
Mais do que a pintura francesa (Manet e os seus espargos, O Dejeuner des Canotiers e outros) ou a holandesa (o "pano de muro amarelo" de Vermeer), a verdade é que a grande referência artística do Em Busca do Tempo Perdido (a Recherche, daqui para a frente) é a pintura italiana e veneziana (não que Veneza não pertença a Itália, mas percebem o que quero dizer), à excepção, claro da pintura de Elstir. Entre os representantes desta pintura italiana, há uma breve referência a Ticiano e Veronese, mas o nome grande - e que vai crescendo na Recherche - é sem dúvida o de Carpaccio.
"Não", dizem vocês. "Sim", digo eu.
Antes mesmo de escrever a Recherche, Proust já demonstrara interesse pela pintura de Carpaccio após a tradução de Ruskin que a refere, bem como após a viagem que empreendeu a Veneza em 1900. Viu os Carpaccio na Galleria dell'Accademia e na Igreja de San Giorgio dei Schiavoni. Nesta história, como em toda a Recherche, a realidade serve de inspiração à ficção, mistura-se com ela. Não é só Charles Ephrussi que está na base de Swann, nem Alfred Agostinelli que poderá, diz-se, estar na base de Alebrtine,1 mas também Carpaccio na base de Fortuny (embora neste caso ambos sejam reais e não ficção). Carpaccio em Proust funciona como a madalena no chá: espoleta (e não despoleta) a memória. A primeira referência a Carpaccio na Recherche surge quando o narrador Marcel fala de Oriane de Guermantes relacionando-a com a música de Wagner e os quadros de Carpaccio:

"Seus olhos azulavam como uma pervinca impossível de ser colhida e que, no entanto, me fosse dedicada; e o sol, ameaçado por uma nuvem, mas ainda despedindo, com toda a força sobre a Praça e na sacristia, seus raios de luz, dava uma encarnação de gerânio aos tapetes rubros que tinham sido estendidos para a solenidade e sobre os quais se adiantava sorrindo a Sra. de Guermantes, e acrescentava à lã deles um róseo aveludado, uma derme nua, esta espécie de ternura, de grave doçura na pompa e na alegria que eriçam certas páginas de Lohengrin, certos quadros de Carpaccio, e que fazem entender que Baudelaire tenha podido atribuir ao som do clarim o epíteto: delicioso." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água, 88)

Proust, que conhecia a obra de Carpaccio até pelo que foi dito em cima, deveria estar a referir-se a uma obra em especial que calculo seja "Incontro dei Fidanzati" do "O Sonho de Santa Úrsula":









Carpaccio
 Incontro dei Fidanzati (pormenor)
1495

Galleria dell'Accademia, Veneza

No segundo volume da Recherche volta-se a Carpaccio quando Elstir evoca as suas pinturas deste ciclo do Sono de Santa Úrsula:

"Havia torneios marítimos como agora, geralmente em honra de alguma embaixada semelhante àquela que Carpaccio representa na Lenda de Santa Úrsula. Os navios eram maciços, construídos como arquiteturas, e pareciam quase anfíbios como Venezas menores no meio da outra, quando, unidos por meio de pontes levadiças, recobertos de cetim escarlate e de tapetes persas, levavam mulheres de brocado cereja ou de damasco verde até junto dos balcões incrustados de mármores multicores onde outras mulheres se debruçavam para ver, em seus vestidos de mangas negras,cujas aberturas de forro branco eram bordadas com pérolas ou ornadas de rendilhado fino. Não se sabia mais onde acabava aterra e onde começava a água, o que ainda era palácio ou já formava o navio, a caravela, a galeaça, o Bucentauro." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água, 206)
De facto, nesta pintura de Carpaccio do ciclo referido vemos que o barco no centro da pintura tem a mesma altura dos edifícios que o ladeiam. O mesmo acontece com outro quadro do ciclo, cujo título é "Arrivo dei Pellegrini a Colonia". Os barcos possuem a mesma altura e imponência dos edifícios à volta e mesmo à medida que passamos aos planos secundários, os barcos continuam a ser da dimensão das estruturas arquitectónicas.
















Carpaccio
Arrivo dei Pellegrini a Colonia
1490
Galleria dell'Accademia, Veneza 
Quando visitou Veneza em 1900, Proust descreveu as suas impressões, relativas aos Carpaccio, à sua amiga Maria de Madrazo, irmã de Reynaldo Hahn e tia de Fortuny. E quem era Fortuny? Fortuny era nem mais nem menos que o maior estilista da época. Mariano Fortuny y Madrazo, de origem espanhola, mas veneziano a partir de 1889, foi pintor, inventor e costureiro, vestindo todas as elegantes do início do século. Criou os famosos vestidos Delphos, baseados na arquitectura, escultura e cultura clássicas, vestidos todos plissados e com motivos bizantinos.
Fortuny
Vestido Delphos
1915
[Não sei porquê, mas este vestido parece o frasco de Organza da Givenchy.]
Ora é justamente a Fortuny que Marcel, o narrador, encomenda um vestido para Albertine levar a Versalhes, na noite anterior ao seu desaparecimento.
"Guardando de meu sonho de Veneza apenas o que podia referir-se a Albertine e suavizar o tempo que ela passava em minha casa, falei-lhe de um vestido de Fortuny que era necessário que encomendássemos por aqueles dias." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira. Lisboa: Relógio d'Água, 75)
"assim, os chambres de Fortuny, fielmente antigos mas poderosamente originais, faziam surgir como um cenário, e até com maior força de evocação do que um cenário, pois que o cenário ficava por imaginar, a Veneza toda atulhada de Oriente" (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira. Lisboa: Relógio d'Água, 153)
E é quando, já após a fuga de Albertine, o narrador vê em Veneza a pintura "Le Patriarche du Grado" de Carpaccio, se recorda de Albertine dessa noite em que usou o vestido de Fortuny:
(...) Carpaccio, e que essa mulher de faces avermelhadas, olhos tristes, com seus véus negros, e que nada poderá jamais, para mim, fazer sair daquele santuário suavemente iluminado de São Marcos, onde estou certo de reencontrá-la, pois ela tem o seu lugar reservado e imutável como um mosaico, seja a minha mãe. Carpaccio, a quem acabo de citar e que era o pintor ao qual, quando eu não trabalhava em São Marcos, fazíamos visitas com mais frequência, precisou um dia reanimar o meu amor por Albertine. Eu via pela primeira vez O Patriarca de Grado Exorcizando um Possesso. [...] quando senti, de repente, como que um leve aperto no coração. Às costas de um dos companheiros da Calza, reconhecível pelos bordados de ouro e pérolas que inscrevem em suas mangas ou coletes o emblema da risonha confraria à qual eram filiados, eu acabava de identificar o casaco que Albertine usava quando fora comigo à Versalhes em carro descoberto, na noite em que eu estava longe de pensar que apenas quinze dias me separavam do momento em que ela iria embora de minha casa. Sempre disposta a tudo, quando lhe pedira que partisse, naquele triste dia que ela deveria chamar, em sua última carta, duas vezes crepuscular, visto que a noite caía e nós falamos em nos separar, ela atirava aos ombros um casaco de Fortuny que levara consigo no dia seguinte e que, desde então, eu jamais tornara a ver em minhas lembranças. Ora, era neste quadro de Carpaccio que o genial filho de Veneza o utilizara, fora nas costas desse membro da Calza que o havia assinalado, a fim de lançá-lo sobre tantas parisienses que decerto ignoravam, como eu até agora, que o modo num grupo de cavalheiros, no primeiro plano do Patriarca de Grado, numas Academia de Veneza. Eu reconhecera tudo e, tendo esquecido casaco, ao vê-lo, os olhos e o coração daquele que ia, naquela noite, partir para ir com Albertine, fui invadido, durante alguns instantes, por um sentimento, da dor, logo dissipado, de desejo e de melancolia." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Fugitiva. Lisboa: Relógio d'Água, 106-107) 








 








Carpaccio
The Healing of the Madman
 1496
 Gallerie dell'Accademia, Veneza

O pormenor de que Proust fala é, em meu entender, este. Veja-se a semelhança entre o mesmo e um design de Fortuny:











Carpaccio
The Healing of the Madman (pormenor)
 1496
 Gallerie dell'Accademia, Veneza






















Não será por acaso que Proust faz esta associação entre este Carpaccio e Fortuny. Li que na borla do capuz (assinalada no quadrado amarelo) está escrita a expressão "Com Tempo" o que não deixa de ser paradigmático num livro que fala disso, do Tempo.

1 - Alfred Agostinelli foi o grande amor de Proust. Motorista do escritor, juntamente com Odilon Albaret, acabou por, tal como Albertine, partir.
 













Anda Toucard
Alfred Agostinelli e Odilon Albaret
1908
Biblioteca Nacional de França, Paris
 
 
- não vais mais vinho para essa mesa -

se conto esta história, é para exorcizá-la e não para me vangloriar até porque não há nada nela de que me possa gabar.

num destes dias, ao passar aqui na rua onde trabalho, um dos vizinhos disse: "sempre a correr!", ao que respondi com um daqueles clichés: "tem de ser!". Mas ele não se ficou por ali. Olhando-me de alto a baixo (que no meu caso é "de baixo a baixo" pois quando alguém começa a olhar, logo acaba) ele atira um "tens filhos?". Eu que nunca o tratei por tu e era, como se costuma dizer "só bom dia e boa tarde", tenho um problema: apanhada de surpresa digo sempre o que não possa magoar o outro. Na minha cabeça, havia uma série de histórias que poderia contar como

[tive uma filha aos quinze anos, mas tive de dá-la para adopção. os meus pais obrigaram-me. a miúda vive com os pais adoptivos no Connecticut (não me perguntem porquê, foi uma coisa que me veio à cabeça) e soube que os pais faziam rituais satânicos com os corações das ovelhas que criavam. já pedi a guarda dela, mas está complicado...]

no entanto, o que me saiu foi a verdade, a maldita verdade: "não, não tenho". O moço dispara:
"estás livre? um destes dias vou convidar-te para jantar. aceitas? é que eu tenho uma paixão inconfessável..."

[estás a confessá-la]

"por ti. És linda"

[você é linda, mais que demais...]

"e para mim, um mistério." 

[um mistério? uuuuuu.... medo...]


"Aceitas sair comigo?"

Para não lhe dizer que não, que não aceitava sair com ele, e por distracção, disse:

"obrigada". (não sei bem porquê).

"Mas aceitas?" insistiu ele. "Olha que eu sou tímido!"


[sabes lá o que é ser tímido... ]

"Depois a gente fala", respondi, para não lhe responder a verdade: "não!" Para dentro disse "merda, devias ter dito logo que não, mas tens sempre medo que te achem uma cabra..."
Até que após algumas mensagens enviadas fora de horas

"tens facebook?",

 tive de dizer:
"Nuno, não é? Bom, deixa-me tratar-te por tu. Há coisas que não podem ser ditas conjugando os verbos de outra forma. Não tenho à vontade nenhum com homens, tenho-lhes até algum medo. Eis o meu mistério. Por isso, vai à tua vida. Só quero ficar em paz com as minhas guerras. Como diz o Chico... Conheces o Chico, o Chico Buarque? Pois, como diz o Chico:

"Deixa em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção
Pode ser a gota d'água"
- o carteiro -

[1]
Esta fotografia da colecção Outono/Inverno 2017 da Marc Jacobs, baseada no estilo Hip-Hop dos anos 70 em Harlem, captada por Joel Meyerowitz. (aqui)

[2]
Este site com as revistas avant-garde mais importantes do início do século XX

[3]
Esta biblioteca. A de Eco, claro.

[4]
Mon ami, Proust! (aqui)

segunda-feira, março 13, 2017

diz que é uma espécie de poema

anseio os dias
de Verão.
as noites,
não.
fica pr'ámanhã. andei aqui às boltas com o Carpaccio (não é esse, é o pintor) e inda num resolbi o imbróglio. depois bós bendes de que se trata, mas prometo que amanhã benho botar posts

domingo, março 12, 2017

sai sentimento mau

quinta-feira, março 09, 2017

- original soundtrack -

Inútil Paisagem


 - não vai mais vinho para essa mesa -

despojos do dia I
entrar em casa à noite, abrir a porta e dizer: "querida, cheguei". ao sair de manhã, abrir a porta e dizer: "amor, vou comprar cigarros".

despojos do dia II
antes de adormecer leio sempre um poema, uma estrofe, um verso de um dos poetas de que gosto. e penso: "é bom. é muito bom. não percebi nada". de manhã enquanto me arranjo volto a ler a mesma coisa e penso: "é para lá de bom. continuo sem perceber nada".

despojos do dia III
deitar com as galinhas para acordar com as gaivotas

despojos do dia IV
entrar em casa e pensar: "esta casa precisava de... uma casa nova"
- o carteiro - 
 



















Aconteceu, por acaso, estar a meio da leitura do livro (agora acabada) quando soube do filme. Fui logo vê-lo, claro. O livro fala da Europa que se perdeu com a Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, com a Segunda. Como a confiança, a segurança, a crença no progresso e na razão deram lugar à barbárie, à desconfiança nos governantes e principalmente, a desconfiança face ao outro de que é paradigmática a instauração de limites geográficos e burocráticos. Fala de um certo laissez faire laissez passez que tornou mais fácil dois conflitos bélicos de monta em menos de 50 anos no mesmo espaço físico e com os mesmos actores. Ninguém acredita que um raio caia duas vezes no mesmo sítio. Mas tendo caído duas vezes no mesmo sítio, acreditará alguém que cairá uma terceira vez? Estes excertos fizeram-me tremer. Note-se que o livro foi escrito em antes de 1942 e que após um exílio forçado no Brasil, o expatriado Stefan Zweig e a mulher se suicidaram no “país tropical abençoado por Deus”.

“De um dia para o outro voltei a descer mais um degrau. Ontem ainda hóspede estrangeiro e, por assim dizer, um gentleman que aqui vivia dos seus rendimentos internacionais e pagava os seus impostos, e agora um emigrante, um refugee. Tinha resvalado para uma categoria inferior, embora não desonrosa. Por outro lado, qualquer visto para o estrangeiro que fosse posto naquela folha branca de papel tinha de ser expressamente requisitado, pois em todos os países se desconfiava daquele “tipo” de pessoas a que eu subitamente também pertencia, pessoas sem direitos, sem pátria que, quando se tornavam incómodas ou ficavam tempo de mais, não podiam ser expulsas caso necessário nem reenviadas para os seus países de origem como as outras. (ZWEIG, Stefan – O Mundo de Ontem. Lisboa: Porto Editora, 2004, p. 476)

“E lá ficavam à espera junto às fronteiras, lá iam mendigando à porta dos consulados, quase sempre em vão, pois que país estava disposto a receber despojados, pedintes? (ZWEIG, Stefan – O Mundo de Ontem. Lisboa: Porto Editora, 2004, p. 495)
- não vai mais vinho para essa mesa -