quinta-feira, setembro 15, 2016

- 11 anos de obelogue -

foi no dia 13, mas passou-me... a fotografia não é grande coisa. a modelo e o bolo pior ainda, mas fica o dia assinalado. 















quarta-feira, setembro 14, 2016

psiquiatra - quer falar sobre isso?
eu - não...

[silêncio]

eu - não. não quero.

[silêncio prolongado]

eu - vamos falar do brexit. ou de outra coisa qualquer.

segunda-feira, setembro 12, 2016

- original soundtrack -

esta é a minha música preferido do novo (acabadinho de sair) álbum do Nick Cave, primeiro após a morte do filho. Este facto poderia ser indiferente, mas não é. Primeiro porque Deus e a perda (morte, separação) estiveram sempre presentes nas suas músicas. Depois porque a transformação que esta morte operou no artista teve efeitos físicos. Ouçam a voz dele; vejam como está diferente. E a letra... meu deus a letra::












Let us go now, my one true love
Call the gasman, cut the power out
We can set out, we can set out for the distant skies
Watch the sun, watch it rising in your eyes

Let us go now, my darling companion
Set out for the distant skies
See the sun, see it rising
See it rising, rising in your eyes

They told us our gods would outlive us
They told us our dreams would outlive us
They told us our gods would outlive us
But they lied

Let us go now, my only companion
Set out for the distant skies
Soon the children will be rising, will be rising
This is not for our eyes

(Distant Sky, Nick Cave and the Bad Seeds)
voltou a acontecer. voltei a perder o mesmo comboio duas vezes. quando cheguei à estação, as portas do comboio estavam a fechar e ele a arrancar. Disse palavrões cabeludos em voz alta e corri em direcção ao metro, quase a tropeçar nos sapatos. Tempo de espera: três minutos. "não vai dar...". Entrei, instalei-me logo no início da composição, a saltitar num pé e no outro. fiz contas de cabeça, contei segundos e quando o metro parou desatei a correr pela rua fora, desci as escadas como uma tótó e... perdi o comboio outra vez. voltei a dizer palavrões cabeludos em voz alta, mas a estação é tão deserta que ninguém ouviu. que fazer? ficar lá a deprimir? não. fazer o caminho de regresso à primeira estação, pela ponte, a pé.

e foi aí que vi aquelas luzes todas dos automóveis, dos sinais de trânsito, das ruas, dos neons e das casas. acho até que vi luzes das lamparinas no cemitério. penso sempre que quem mora ali é gentil, bom, sensível, feliz (gosto de sublimar) e que um dia ainda vou conseguir acender uma luz daquele lado da ponte. só espero que não seja a do cemitério. lagarto, lagarto, lagarto!  
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou "mais uma corrida, mais uma viagem" ou "vamos à vida que a morte é certa" ou "cá vais mais uma comparação entre a arte da Antiguidade e a pintura Neoclássica. Desta vez comparamos uma parte de um fresco de Herculano com um quadro bem conhecido de Ingres. Confesso que não gosto muito de Ingres. Não gosto muito dos neoclássicos. Também não gosto dos Nazarenos, nem do El Greco. Pronto, disse. Sei que não me perdoam não gostar do El Greco, mas aquilo sabe-me mal; sabe-me a círio pascal, que querem? Mas não há dúvida, de facto, que muita da pintura Neoclássica se inspirou em cenas clássicas. Parece quase uma anedota dizer isto: a pintura neoclássica inspirou-se nos frescos, relevos e escultura clássica. Pois então claro que se inspirou: se são ambas clássicas!... Por falar na escultura clássica e na ideia de pureza, brancura e ascetismo que geralmente associamos a esta, vale a pena ver estes três minutos feitos pelo Getty Museum que destroem as nossas certezas burguesas. Mas no que diz respeito a este post e ao Ingres, lembro-me que ando vi a Madame Bovary do Claude Chabrol, reparei que a Isabelle Hupert na cena do baile tinha qualquer coisa de Madame de Ingres; ou seja de uma das muitas madames que o Ingres pintou. Esta pose de Arcádia no fresco não é algo nunca visto, não é uma raridade. Tenho a certeza que mais mulheres foram desenhadas e pintadas com o mesmo ar blasé, a mesma pose. Não é isso que faz a ligação entre o fresco e a pintura - até porque uma segura o ceptro (braço erguido) e outra tem o braço sobre o regaço. o que para mim faz a ligação entre as duas expressões artísticas é aquela mãozinha no rosto. e a gente bem sabe como as mãos são importantes pelo menos para o belogue. um dos autores que melhor pinta mãos é, em minha opinião, o Bronzino. ora vejam lá. mas a mão mais bonita é a do David do Miguel Ângelo. É um cliché, mas é verdade. 





















Hercules and Telephus
Século II
Museo Archeologico Nazionale, Nápoles







































Ingres
Madame Moitessier
1856
National Gallery, Londres
- não vai mais vinho para essa mesa -







































































- o carteiro -

começa daqui a nada mais uma peregrinação a Fátima. fui lá duas vezes e não foi a pé, infelizmente. fui lá quando tinha por volta de 12 anos e lembro-me de ter ficado num hotel que se chamava "Verbo Divino". há noite as meninas resolveram fazer chamadas para o quarto dos meninos e os pais iam desmaiando quando no dia seguinte viram a conta. Mas era mesmo muito importante para as meninas dar a conhecer aos meninos, por telefone, quem gostava de quem. A segunda vez que fui lá foi há uns três anos quando fui ver as grutas de Mira d'Aire e as pegadas de dinossauros. No regresso passei por Fátima para ver a nova Basílica que me pareceu muito barulhenta para um culto que se quer sossegado. 

Se acredito? Não acredito no Deus construído com Constantino, no Deus de secretaria, no Deus das hierarquias. Desde pequena que tinha mais medo do que respeito ou crença. Achava que Deus me castigava quando eu me divertia. E castigava-me com um problema familiar que tive de carregar até aos 18 anos, em silêncio e sem ajuda. Nessa altura acreditei em Nietzsche: Deus estava morto e não me podia ouvir. Quero acreditar que a vida não é em vão, mas quando olho para algumas vidas que conheço, é muito difícil acreditar...

Bom, voltemos a Fátima. Quando as pessoas dizem "tenho muita fé em Nossa Senhora de Fátima" ou "acredito na Santa Rita", o que na realidade estão a dizer é que acreditam em Maria. Todas as santas são uma imagem, ou a renovação da imagem de Maria. É como se a Igreja criasse representantes de Maria e de Jesus (no caso dos santos), mais próximos das pessoas, representantes que conhecem as dores, desejos, idiossincrasias dos crentes. Por isso é que temos a Senhora do Mar junto das comunidades piscatórias, por exemplo. Mas todas as Nossas Senhoras e Santas são uma imagem de Maria. Ir a Fátima a pé é a alternativa possível a ir a Jerusalém a pé para visitar a Abadia da Dormição de Maria.

Há várias formas de representar Maria. Nesse sentido, os ortodoxos são muito mais marianos do que os católicos apostólicos romanos, pois possuem regras de representação muito estritas..., mas vamos lá ver se nos orientamos. 

Imaculada Conceição
Uma das formas de representar Maria é a chamada Imaculada Conceição (ou Imaculada Concepção que se refere na verdade não a concepção imaculada de Jesus, sem pecado original, mas à concepção imaculada, também sem pecado original, de Maria. Atenção que a concepção de Maria sem pecado original não a é no mesmo sentido que atribuímos à concepção de Jesus. Quando Maria foi concebida no seio de Santa Ana, Deus concedeu-lhe a graça de aceitar o que o Anjo mais tarde lhe iria dizer). O dogma da Imaculada Conceição é uma daquelas coisas feitas... na secretaria, já no século XIX. Por decreto papal, a Virgem foi concebida sem pecado! Representar isto era difícil. Embora a Imaculada Conceição só tivesse sido reconhecida no século XIX, já antes se tentava uma representação para tal. A fórmula encontrada foi representar a Imaculada Conceição de pé, coroada por um halo de 12 estrelas, sobre um globo terrestre e a lua, bem como esmagando a serpente. Esta fórmula é uma mistura entre o Livro do Apocalipse: "Depois, apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça. Estava grávida e gritava com as dores de parto e o tormento de dar à luz. Apareceu ainda outro sinal no céu: era um grande dragão de fogo com sete cabeças e dez chifres. Sobre as cabeças tinha sete coroas e, com a sua cauda, varreu a terça parte das estrelas do céu e lançou-as à terra. Depois colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando ele nascesse. Ela deu à luz um filho varão. Ele é que há-de governar todas as nações com ceptro de ferro. Mas o filho foi-lhe arrebatado para junto de Deus e do seu trono." e as determinações de Murillo e da Inquisição quanto às representações religiosas na arte. As doze estrelas podem ser muita coisa (o que não falta são números místicos): doze tribos de Israel, ou os doze apóstolos. A serpente é a luta do bem contra o mal - venceu o bem - e a Lua... bom, acho que a Lua tem a ver com Vénus. Quer dizer, Vénus e Maria não são comparáveis à primeira vista: uma é a deusa do amor carnal. a outra é espírito. Uma é mãe, a outra é amante. Uma anda nua, a outra vestida. Mas Vénus tem como símbolo um pequeno crescente na cabeça. Talvez porque a Lua, como a Terra, é feminina e ambas representam essas duas dimensões femininas. Uma das representações mais bonitas da Imaculada Conceição é a de Velazquez. Não é que seja a mais representativa disto que escrevo, mas o rosto da Virgem é lindo. Ora vejam lá.





















Tiepolo
Immaculate Conception
1767-1768
Museo del Prado, Madrid

 Virgem com o Menino
Ora bem, a Virgem com o Menino "são mais 500", como se costuma dizer pois a simples representação da Virgem com o Menino tem, para os ortodoxos, várias sub-representações. Já falei delas aqui, mas vou voltar a falar. Note-se que estas representações aquiropoetas são típicas da iconografia bizantina e não das representações ocidentais. Mesmo a divisão em termos de denominação é tipicamente bizantina. Uma vez que não são muito faladas - e que tenho um fascínio pelo ritual bizantino - achei por bem falar nelas. São muitas, por isso vou falar de apenas algumas. As representações de Maria (Theotokos ou mãe de Deus, por oposição ao que pretendia o Arianismo (o arianismo defendia que a Virgem não era Theotokos, mas Christotokos, "mãe de Cristo") com o Menino podem dividir-se em várias. 
Maestas é o nome que a Virgem adquire quando está entronizada com o Menino, como por exemplo, aqui. É uma representação genérica:





















Cimabue
Maestà di Santa Trinità
1280-1285
Uffizi Gallery, Florença

Panagia
Maria de pé, com os braços levantados, na posição de orante (típica da arte paleocristã) e com um medalhão no peito, onde aparece o rosto de Cristo menino.





















Panagia
século XIII

Nikopoia
Sentada em Maestàs, com Jesus no colo, de frente:

















Nikopoia
Hagia Sophia, Istambul 

Hodegetria
Maria com Jesus ao colo (não nos joelhos, mas ao colo), e ela apontar para ele como que mostrando que ele é o caminho:

















Duccio
The Madonna and Child
1284 

Eleousa
É aquela que conhecemos melhor pois teve muita aceitação no ocidente. Mostra Maria com o menino no colo, numa demonstração de carinho entre mãe e filho (geralmente têm o rosto colado um ao outro):

















The Cambrai Madonna
Italo-Byzantine
1340
Cambrai Cathedral

 Virgem do Leite
Ora bem, como está bom de ver, a Virgem do Leite é a Virgem a dar de mamar ao menino. Estas representações não tinham, na maior parte das vezes, nada a ver com erotismo. No século XIV as imagens da Virgem a amamentar o menino eram um sinal de esperança, já que as pestes e a fome eram a realidade dos povos. Ver uma Virgem Maria a amamentar o Menino era crer num futuro melhor. Nos séculos XV e XVI, com a recuperação das teorias de Galeno - que dizia que o leite materno era necessário para a formação física da criança (a formação psicológica ficava a cargo dos genes do pai), as jovens mães e aspirantes a mães (que eram todas pois se não se era mãe, era-se freira ou prostituta) viam estas imagens como uma forma de inspiração. Mas atenção, pedia-se decoro aos artistas: apenas um seio descoberto. E esse seio era geralmente tão abstracto (a ideia e arquétipo de beleza feminina de que o seio seria redondo como uma maçã e com um mamilo muito pequeno e rosado, estaria e está longe da realidade) que não podia inspirar qualquer voluptuosidade. Veja-se aqui:

















Rogier van der Weyden
Virgin of the Milk

 Virgem da Misericórdia
A Virgem da Misericórdia é aquela que sob o seu manto, todos acolhe, sejam eles crianças ou adultos, pobres ou ricos, anónimos ou conhecidos. Muitas vezes as Virgens da Misericórdia eram encomendadas pelas confrarias ou por mecenas e por isso a Virgem "via-se na obrigação" de acolher no seu manto os confrades e os mecenas "mai-las" suas famílias.
 


















Domenico Ghirlandaio
Madonna della Misericordia
1473
Florença

Virgem do Rosário
 Bem, a Virgem do Rosário é difícil de encontrar até porque inicialmente não tinha esse nome. Só no século XVI é que adquiriu o nome de Virgem do Rosário pois antes era qualquer coisa como "Nossa Senhora da Vitória". Como podem ver pela imagem abaixo Nossa Senhora está rodeada por 15 círculos, cada um com um desenho diferente. Estes 15 círculos chamam-se mistérios. O terço que habitualmente as pessoas rezam é um terço destes 15 mistérios; ou seja, cinco mistérios. Cada mistério é composto por 10 avé-marias e um pai-nosso. Sendo assim, estamos perante 50 avé-marias num terço e 150 num rosário. Os mistérios têm constituição: são gozosos, dolorosos, gloriosos e o Papa João Paulo II adicionou-lhe os mistérios luminosos. Os mistérios gozosos referem-se aos primeiros tempos da vida da Virgem, enquanto mãe (Anunciação, Visitação, Natividade, Apresentação do Menino no Templo e Jesus entre os doutores). Os mistérios dolorosos referem-se ao período relativo à morte de Cristo (Oração de Jesus no Horto das Oliveiras, Flagelação, Coroação, Calvário e Crucifixão (pode dizer-se crucifixão e crucificação)). Os mistérios gloriosos dizem respeito à ressurreição de Jesus ( Ressurreição, Ascenção de Jesus, Descida do Espírito Santo, Assunção de Maria (porque Maria não ascende como Jesus, é assumida nos céus), e a Coroação (construção moderna para calar aqueles que queriam dar a Maria outro papel. por isso criou-se a "Rainha dos Céus")). Os mistérios luminosos não encaixam bem aqui, mas se o Papa mandou, quem sou eu... São mais... místicos e não têm a ver com passagens concretas da vida de Maria ou de Jesus, excepto o baptismo deste último.





















Lorenzo Lotto
Madonna do Rosário
1539
Virgem do Ó
Ao contrário do que pensam, a Virgem não se chama do Ó porque está grávida, redonda como um Ó. Chama-se Virgem do Ó porque era celebrada no dia 18 de Dezembro. Ora entre 18 e 25 de Dezembro cantavam-se antífonas que começavam por Ó: "Ó Mãe do Redentor", "Ó clemente", "Ó beatíssima"...
 E assim acontece. Rezem por mim.
ana - não há nada de errado contigo.
eu - não consigo deixar de pensar que há. e que a culpa é minha.

quinta-feira, setembro 08, 2016

- não vai mais vinho para essa mesa -

o "o" desaparecido n'"O museu desaparecido" não é apanágio deste exemplar. A um amigo, que também tem este livro, o "o" também desapareceu. Não é photoshop nem estou a tentar criar nenhum mito urbano, mas a verdade é que o "o" tem dado "de frosques" nos exemplares do Hector Feliciano. 




não, não, não, não, não, não, não... por favor,... não. esta notícia tem tudo de errado. é o oposto daquilo que deveria ser a Europa que nos venderam e que lhes venderam; é a prova de que não aprendemos com os erros; é só mais gasolina na fogueira. tudo de errado.
revivo aquelas horas na minha cabeça todos os dias, várias vezes ao dia. Acontece-me até revivê-las quando estou a falar com pessoas, no trabalho:
"pois, claro... vou já enviar o email"
desligo o telefone e não envio o email de imediato. fico mais 20, 30 segundos absorta. Penso:
"Será que fiz algop de errado? terei dito alguma coisa inconveniente? notava-se o meu nervosismo? pareci oferecida, fria, carente?"
"carente sim", respondo a mim própria." a carência é a tua sombra".
À noite, quando tudo fica em silêncio esses pensamentos tomam conta de mim.
"1:43H e tu sem dormir. Pára de pensar nisso. Conta carneiros", digo-me.
Debito o nome de todas as capitais da europa por ordem alfabética : "albânia-tirana; alemanha - berlim, azerbaijão - baku...". Passo para o cognome dos reis da primeira dinastia. Às vezes adormeço nessa altura. Outras tenho de inventar novos jogos:
"agora vais dizer nomes de artistas começados por "a". Começo:
"Arcimboldo, andrea del sarto, as... ari... alberti".
 "Agora por "B", diz a metade do meu cérebro que não está a dormir:
"Bi... bar... boccaccio!"
"Não era um artista desses. Passa para a letra "c".
"Caravaggio, correggio, campi, co... cal... não consigo"
"Então dorme, sossega. Não há nada que possas fazer."
E são 2:00h.

quarta-feira, setembro 07, 2016

- original soundtrack -

é curioso... gosto desta ária, mas não na totalidade. há ali partes que acho... más...












Una furtiva lagrima
Negli occhi suoi spuntò...
quelle festose giovani invidiar sembrò...
Che più cercando io vo?

M'ama, lo vedo.
Un solo istante i palpiti
Del suo bel cor sentir!..

I miei sospir confondere per poco a suoi sospir!...
Cielo, si può morir;
Di più non chiedo.

(Una Furtiva Lagrima, de L'elisir d'amore de Donizetti, interpretado por Enrico Caruso)

- não vai mais vinho para essa mesa -

os tempos são de coruja ou de águia. estes são tempos de coruja; desta coruja:
video

- o carteiro -


saiu a lista dos melhores filmes do século XXI; ou seja, a lista dos melhores filmes da primeira década do século XXI. Felizmente, ainda faltam mais nove décadas para o século terminar e possivelmente - é pelo menos o meu desejo - outros filmes virão, filmes esses que destronarão o Mulholland Drive do primeiro lugar. é... bem, nem sei o que dizer acerca da colocação do Mulholland Drive no topo da lista. e a comparação com o Citizen Kane... enfim, só mesmo para proto-geeks. O "meu" filme, o filme que para mim ficaria no primeiro lugar, nem aparece. Tem realização do Hanneke e a Isabelle Hupert como professora de piano fria, sádica e masoquista. Que mais pode uma pessoa pedir? é um murro no estômago, mas é um belíssimo filme. belíssimo no sentido de "muito bom".

Felizmente o In the mood for love (ou em português, Disponível para Amar) surge em 2º lugar! chorei quando vi este filme. chorei como uma menina de 12 anos. foi a música, foi a história... a história é simples: dois casais alugam quarto na casa de um outro casal mais idoso. Isto passa-se no Japão, nos anos 60. Aos poucos descobrem que os seus parceiros os traem um com o outro. É quando os traídos se juntam. quando digo "se juntam" não estou a dizer que dormem juntos. aliás, isso distingue-os dos seus companheiros e é isso que eles alimentam e que os mantém juntos. eles acreditam que não são como os seus companheiros porque não concretizam, não materializam o sentimento. mas quando no final ele lhe diz o que sente por ela, toda essa certeza se desfaz. eles percebem que se tornaram como o marido e como a mulher que os traíam. pressionados por uma sociedade conservadora - e pelos planos sempre apertados em que se movem (os interiores japoneses são já de si apertados e esta ideia é corroborada com os planos em escadas, corredores, janelas...), separam-se.













esta cena é a cena final do filme, quando ele se desloca até um buraco na parede do templo e deposita aí o seu segredo. provavelmente o segredo teria a ver com saudade, amor, solidão.

mas isto tudo para escrever sobre um outro filme, o filme que muitos citam, mas poucos viram (até porque são três horas de cinema neo-realista) é do Visconti, como não podia deixar de ser. Até tenho receio de escrever sobre um filme e uma personalidade de quem os críticos e iluminados já tudo disseram. O Visconti era um aristocrata: a família Visconti está na formação do reino de Milão. Ele dedicou-se ao cinema, como se dedicou ao teatro e foi bom nas duas áreas. realizou o meu muito amado "Morte em Veneza" que já me levou a escrever este post e este, bem como "Violência e Paixão "e claro, "O Leopardo". "O Leopardo", tal como outros filmes de Visconti, fala da família.

[Um pequeno parêntesis: Visconti adorava a obra de Thomas Mann. Adaptou "José e seus irmãos" ("Rocco e os seus irmãos"), a "Morte em Veneza", claro, e tinha planos para adaptar "Os Buddenbrook" e "Mário e o Mágico". Num dia, em conversa com Mann, Visconti conta-lhe qual a sua ideia para a adptação para cinema ou teatro (penso que foi para teatro) de "Mário e o Mágico". Visconti, muito pálido, fala, discorre, enquanto Mann o ouve. No final Mann, diz-lhe: "eu também tenho pensado muito nessa adaptação e a minha seria igual à sua". Visconti recupera a cor...]

Neste caso, de uma família nobre na Sicília do século XIX, com todas as convulsões na passagem do território dos Bourbon para os Sabóia, a ascensão da burguesia ao poder e o desaparecimento da velha ordem. Quem cita o filme, cita sempre a célebre frase do Príncipe Salinas: "é necessário que se façam revoluções para que tudo fique na mesma"; ou seja, é um pouco o que acontece n' "A Grande Ilusão" do Renoir (de quem Visconti foi aprendiz): a velha ordem, o antigo regime desaparece e quem desejar sobreviver terá de saber viver e conviver com a nova ordem. esta nova ordem que chega pelo meio de armas, vidas, traições e associações duvidosas, embora muito revolucionária e barulhenta, seguirá o mesmo rumo que a antiga e tudo ficará como está. Ou seja, os que se seguem no poder fazem sempre o mesmo que os seus antecessores. Ao Príncipe Salinas restava apenas jogar com os seus trunfos: o título. Casa por isso o sobrinho - um jovem nobre que se associa aos revoltosos, mas não hesita em abandonar a causa consoante o seu interesse - com a filha de um burguês, partidário da Itália unida, avarento, sem títulos e que vê neste casamento a forma de ascender socialmente. faz-se uma troca honesta: Salinas dá à filha de Sedara a possibilidade de se tornar uma condessa e Sedara dá ao sobrinho de Salinas - e à família em si - mais posse de terra.

No filme, a cena do baile é pungente e talvez a mais importante (a par da cena do jantar de apresentação): Salinas, que vê a juventude e a nova ordem tomarem conta da Sicília que tanto ama, que vê esta nova geração a desfigurar as tradições e as convenções, sente-se a envelhecer. A dança que concede a Angélica - a filha de Sedara e com quem o sobrinho casará - marca essa passagem de testemunho. Convém dizer que a valsa que ambos dançam, da autoria de Verdi, havia sido encontrada por um assistente de Visconti num mercado em segunda mão, ou coisa que o valha... O Palácio onde esta cena é filmada existe mesmo. Chama-se Palazzo Valguarnera-Gangi e pasme-se, tem no chão no local onde uma das cenas foi filmada, um leopardo em ladrilho!
















 (esqueçam aquela figura que está a entrar de caso verde, ali do lado esquerdo)



- o carteiro -

porque não quero que bos falte nada - nem uma roupa passada a ferro, nem uma escadas passadas a pano - deixo-bos alguns links de coisas que podem ser úteis. se não forem úteis, também não fazem mal nenhum:


[1]
ah... a enciclopédia que faltava. o paraíso dos tótós.

[2]
algumas aberrações como a Colonia Dignidad; Bohemian Grove; Fordlandia

[3]
Museum of Stolen Art


terça-feira, agosto 30, 2016

se eu pudesse chegar até ti, se me pudesses ler, se pudesse colocar em palavras ditas aquilo que acho, que sinto, seria assim:

"acho que... não queres nada. Queres aquilo que sabemos, como eu. Ou talvez nem mesmo isso. Mas todo o galanço protocolar te aborrece de morte. Imagino-te a dizer "que chatice... não tenho tempo para isto!". Imagino-te até a rir depois das despedidas. A rir e a pensar "é mesmo tótó, coitadinha. E está de quatro". que p*** estúpida que eu sou: acreditar que alguém iria sentir algo por mim... porquê? só porque tens um blog? porque fazes umas merdinhas com as palavras?
sei que não queres nada. queres saber que há alguém que espera por ti, alguém que pensa em ti, alguém que estaria contigo sem condições, mas é só; ou seja, queres o ego bajulado.
às vezes parece que aquilo que sinto por ti me vai saltar pelo peito fora, mas compreendo que seja unilateral.
Tinha tanto para te dar."

quinta-feira, agosto 18, 2016

 
para quem não sabe, a I-D é uma revista de moda, música, cultura, etc em que na capa há sempre alguém com um olho tapado


vi este filme em 2002, mais ou menos. nessa altura ia ao cinema todas as semanas. vi naquela sala o "Irreversível" (lembro-me que à medida que a violência ia aumentando, eu ia descendo na cadeira), o "Habla con Ella", o "Dancer in the Dark", "A Pianista" (que foi para mim uma revelação) e este "Intervenção Divina". Lembro-me bem de quando vi esta cena: transpirei! Tem sexo, sem aquilo que é conotado com sexo.  
video
olá professor
 
Desculpe mas só agora vi o seu comentário. Pois olhe, não sabia desse urinol portátil. Isso de prático não devia ter nada, mas quer dizer... aquelas roupas também não eram práticas: fosse para fazer xixi onde fosse, aquilo não era prático.
Mas sabia da história acerca do xixi em pé. Lembro-me aliás de estarmos os dois em Santa Catarina - não me lembro a que propósito - frente à montra de um oculista que tinha em exposição, para além de óculos, umas figurinhas típicas. uma delas era uma camponesa com um balde de leite junto aos pés e por causa disso começámos a falar das mulheres que faziam xixi em pé e sugerimos mesmo que aquele leite tivesse um aroma especial...
Até breve!

quarta-feira, agosto 17, 2016

- original soundtrack -

porque a chuva torna tudo melhor (excepto as férias de Verão, claro)
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

"queria ser uma mosca"

olá a todos, tudo bem? óptimo, ainda bem!
não, não queria ser uma mosca: as moscas são irritantes e muito sujas. mas quando ouço essa expressão ("ah, como queria ser uma mosquinha"), penso logo: se fosse uma mosca onde é que eu iria? procurar cócó, calculo; irritar alguém colocando-me no ecrã da televisão; ouvir alguma conversa interessante. mas de quem? as coisas mais interessantes a gente não diz a ninguém, certo? ou então ver uma pessoa na intimidade com todas as atitudes mais boçais que podemos imaginar. mas quem? a verdade é que quando confrontada com esta possibilidade (se de facto fosse uma possibilidade), não conseguia dar uma resposta. é como responder a algumas questões dos questionários de Verão: "com quem iria para uma ilha deserta?"; "se o mundo acabasse amanhã, o que é que faria hoje?" (esta eu sei responder...). talvez, enquanto mosca fosse para a montra de uma pastelaria admirar o chantilly e sonhar com fruta podre.
esta conversa das moscas tem um propósito. há uns anos fiz um post sobre moscas em obras de arte. o post em questão está aqui. Entretanto encontrei mais moscas que talvez desejem conhecer. Tenho para mim que as moscas surgem aqui por virtuosismo, já que não fazem parte da temática das obras em questão. Não apresento portanto naturezas-mortas onde a mosca faria sentido, mas antes obras de carácter religioso ou mitológico (não sei se não estou a dizer uma grande asneira: religioso e mitológico não são exactamente coisas diferentes. o paganismo que defendia a existência e crença em seres mitológicos, tem uma série de práticas religiosas.) É verdade que a mosca surge na Bíblia conotada com o diabo, mas não me parece que seja o caso. Para mim era só virtuosismo.


































Pietro di Cosimo
Venus, Mars and Cupid
1490
Gemaldegalerie, Berlim








































Carlo Crivelli
Saint Catherine
1491-1494
National Gallery, Londres













































Niccolo di Maestro Antonio
Virgin and Child
1486
Minneapolis Institute of Arts, EUA
 




















Giorgio Schiavone
Virgin and Child with angels
1459-1460
Walter Arts Museum, EUA
 








 
- não vai mais vinho para essa mesa -

[conversa com o patrão]
- já lhe disse que tem uns lábios lindos?
- ... sim... várias vezes. sabe que o Balzac dizia que toda a mulher tem a sua perfeição.
- sabia. e o Herodes o que é que dizia?
- hã...?!
- o carteiro -

e o Homem criou Deus... (XXI)
Como podemos ver, até pelo último “e o Homem criou Deus”, o Papa já não era a autoridade suprema na Europa. Em meados do século XVI o Luteranismo, o Calvinismo e o Anglicanismo tornaram-se a religião de grande parte da Europa Central e do Norte. O protestantismo estava de tal forma em ascensão que até se dizia que em 50 anos suplantaria o Cristianismo. No entanto não foi isso que aconteceu.
 
Em Espanha, em Pamplona, trava-se por essa altura uma batalha simples - e muito comum em qualquer parte da Europa - por território. Esta contenda parece não ter qualquer influência na evolução do cristianismo. É uma batalha como outra qualquer na qual são disparadas balas de canhão. Uma dessas balas atinge a perna de um soldado acabando assim com os seus sonhos de grandeza militar. O nome desse soldado era Inácio de Loiola. Ao longo de uma convalescença longa e dolorosa, as únicas leituras que dão algum alívio a Inácio são as espirituais. Elas inspiram-no a ser um soldado novamente, mas desta vez ao serviço da Virgem Maria. Já com 30 anos (o que naquela altura era muito), Loiola aplica a mesma paixão que tinha pela e na guerra, ao estudo religioso. O seu objectivo é viver na Terra Santa. De facto em 1522 parte para lá, fazendo uma pausa em Barcelona. Segundo a lenda, uma vez em Barcelona Loiola ajoelha-se durante toda a noite junto ao altar de Nossa Senhora de Montserrate e deixa ali a sua espada e todas as suas roupas de combate. Adopta antes um traje modesto e durante os 10 anos seguintes dedica-se à meditação, chegando mesmo a escrever os seus "Exercícios Espirituais", um livro feito para ajudar as pessoas a descobrir o seu papel no mundo de Deus. A tónica de Loiola no indivíduo parece estar em linha com o pensamento da Reforma Protestante, embora Loiola seja completamente católico. Loiola também ensina, principalmente crianças, mas é pelos seus dotes enquanto pregador que chama a atenção da Inquisição. A Inquisição via com desconfiança a pregação por parte de pessoas que não eram ordenadas. Loiola é então atirado para a cadeia por 42 dias e uma vez liberto, proíbem-no de pregar.  Não satisfeito, Loiola vai para Paris estudar Teologia (diz a lenda que na aula de Gramática era o único aluno adulto, já que os seus colegas eram adolescentes).
 
E 1540 Inácio de Loiola funda uma nova Ordem: os Jesuítas. Recruta os melhores, os mais inteligentes e os mais dedicados para se juntarem a ele. A sua dedicação enquanto missionários fez dos Jesuítas uma das mais poderosas forças do Cristianismo, força essa que começou com uma escola na Sicília e depois se expandiu para o resto da Europa. A sua missão consistiu em reavivar a fé católica neste tempo de Reforma.
 
- o carteiro -

na calha...





























































domingo, agosto 14, 2016

sai pensamento mau, sai pensamento mau, sai pensamento mau
diz-se que o que não levaram os bárbaros, levaram os Barberini (quod non fecerunt barbari, fecerunt barberini). "fecerunt" quer dizer fazer, mas vocês percebem. Barberini era o nome de uma família romana que deu um Papa à cristandade. esta frase vem a propósito do Papa em questão não se ter coibido de mandar derreter o bronze da cúpula do wPanteão para fazer o baldaquino que se encontra em São Pedro no Vaticano. Pode-se acrescentar que aquilo que não levaram os bárbaros, nem os Barberini, levaram os franceses e os alemuães. os primeiros pela mão de Napoleão e os segundos, fazendo jus à moda do Grand Tour (iniciática para os jovens de algumas famílias mais ricas), com o seu espiírito ex
pedicionário. Levou-se de tudo: moedas, altares completos, esculturas colossais... Tenaãoo em conta a actividade terrorista do ISIS, do Boko Haram, dos Talibas e quejandos, pode dizer-se que foi bem melhor assim, embora esta observação peque por ser paternalista. Isto é o mesmo que sugerir ou afirmar uma superioridade do Ocidente face ao próximo oriente e mesmo a países como a Grécia que tem parte dos frisos do Partenon no Louvre e no Museu Britânico. Por outro lado, quando penso que em Itália, até há pouco tempo, se pensava em privatizar/vender monumentos como o Coliseu ou o David do Miguel Ângelo...
O mais curioso é saber que os alemães (pelo menos) pedem aos russos a devolução das peças que o exército soviético pilhou no final da Segunda Guerra Mundial. Ladrão que rouba ladrão...

quinta-feira, agosto 11, 2016

beluga - que foi, filhinha? estás muito jururu.
beluga - comi um hamburguer, coisa que não comia há anos. há muitos anos.
beluga - e depois?
beluga - e depois? e depois sinto-me gorda! eis a resposta ao teu "e depois?"
beluga - ó filhinha, era um hamburguer hallal. eles não comem carne vermelha. já viste algum muçulmano gordo?
beluga -  e o ketchup e a maionese?
beluga - faz de conta que também são hallal.
beluga - merda, tenho o rabo a parecer um campo de golf, cheio de buracos de celulite.
beluga - vai tomar banho que isso passa.
beluga - ainda por cima o espelho da casa de banho é tão grande.
beluga - filhinha, faz como o perseu quando foi decapitar a medusa: entra de costas.


estou com estas calças vestidas há tantas horas que quando despi-las elas vão manter-se de pé

quarta-feira, agosto 10, 2016

- original soundtrack -

isto é muito bonito





















(Mi par d'urdir ancora, Enrico Caruso, ópera "Les pêcheurs de perles" de Bizet)
- não vai mais vinho para essa mesa -

da antítese

[ouvido no comboio]
- O Camões??? Tipo, dah!... aquilo é escrita pré-histórica!!!
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou "como já estava a sentir falta dos "antes e "despoises"... pois é meus fiéis leitores, gente que vem de todo o mundo só para ler estas parvoíces: cá estamos com um "antes e depois". hoje trago-vos Príamo (não confundir com Príapo). Não percebo muito bem esta representação e vou explicar-vos porquê: segundo a mitologia grega, Príamo era rei de Tróia quando se deu a Guerra de Tróia. Para quem não sabe nem viu o filme com o Brad Pitt a fazer de um Aquiles muito másculo (ao que parece não foi sempre assim já que Aquiles numa outra passagem da sua vida teve de se vestir de mulher para escapar à morte), esta personagem participou na Guerra de Tróia que opôs gregos a troianos: os gregos queriam raptar Helena de Tróia, a mulher mais bonita da Antiguidade e os troianos queriam mantê-la. Quem venceu foram os gregos que com o célebre "Cavalo de Tróia" se infiltraram na cidade, atacaram Tróia e raptaram Helena. Aquiles ficou ferido no calcanhar (a única parte do corpo que era vulnerável). Mas antes disso, matou Heitor, filho de Príamo. Ora o que vemos nesta cena é, segundo creio, Príamo a pedir a Aquiles que libere o corpo do seu filho Heitor. O que me confunde são os timings: é que depois disto Aquiles ainda entrou dentro da cidade combateu e, aqui sim, foi ferido. Mas vamos ao que interessa: no século XIX as pessoas - e os governos - interessavam-se genuinamente pelas coisas culturais: discutia-se literatura nos periódicos, nos serões, criticavam-se os artistas, faziam-se exposições nos Salões, exposições às quais o público acorria. Sendo que as exposições nos Salões tinham o apoio das altas individualidades, era natural que vigorasse uma estética oficial. E no início do século XIX houve um gosto um bocado piroso pelo orientalismo e pelos grandes temas mitológicos, históricos e religiosos, totalmente desadequados ao seu tempo: com Nietzsche Deus tinha morrido e já ninguém acreditava em deusas e deuses da Antiguidade. Só Napoleão dava aos pintores bons motivos para os temas históricos/políticos. Mas muitos destes artistas legitimados pelos Salons foram posteriormente - e pouco posteriormente - esquecidos em detrimento da nova estética impressionista. Bom, o que interessa é que alguns modelos da Antiguidade são assim a modos que arquetípicos (sim, a palavra existe). Para além deste post, conto colocar outro que compara um relevo romano com uma pintura de Ingres. E assim acontece." 
Príamo aos pés de Aquiles
Sarcófago da Colecção Borguese
século III
Museu do Louvre, Paris

Martin Langlois
Príamo aos pés de Aquiles
1809
Escola Superior de Belas Artes, Paris
- não vai mais vinho para essa mesa -

prioridades...















- o carteiro -

quer se acredite ou não, temos de concordar: há santos muito estranhos, como santa maria egipcíaca, santa wilgefortis, São Guinefort... em Portugal também os há: mais estranhos e menos estranhos. um desses santos que protegem as vilas portuguesas e do qual se contam história jocosas é São Gonçalo de Amarante, protector, claro está, de Amarante. Toda gente sabe, e já aqui referi, as piadas, lenga-lengas e tradições em torno deste santo. Chamam-lhe casamenteiro das velhas, falam do seu "caralhinho" (desculpem) e por aí em diante. Mas há uma característica da representação de São Gonçalo de que infelizmente se fala pouco. São Gonçalo surge sempre - pelo menos que eu saiba, mas se não é sempre, devia ser - em cima de uma ponte, por vezes como que pairar sobre ela. Porquê? Não é que ele seja o protector das pontes, que não é, mas antes o protector das margens. Ora vamos lá ver se a gente se entende: imaginem um mundo parco em imagens e em informação, pobre em todos os aspectos e onde o perigo estava sempre à espreita e podia vir da mais insignificante das origens. As pontes eram de facto potenciadoras de perigo, pois ligavam o nosso lado, ao desconhecido.
 





 













Da mesma maneira que os poços eram os lugares de licenciosidade, onde as regras domésticas eram quebradas e onde homens e mulheres se encontravam (até existe aquela ideia de ir à fonte e quebrar a asa do cântaro que é no fundo uma analogia para iniciação sexual), também as pontes potenciavam o confronto com o desconhecido, confronto esse do qual algo de bom podia vir, mas que quase sempre era associado com o mal. Do outro lado da margem estava o rival, o outro. Para lá chegar era necessário entrar em outros domínios, pagar imposto, acautelar-se.
 
Nos tempos que correm, o outro está também na outra margem. Essa margem pode não ser a da ponte, pode não ser tão literal. O outro é aquele que nos quer impor as suas ideias pela força física, o outro é aquele que nos quer roubar o emprego, o outro é sempre caracterizado de forma - total ou parcial - negativa. Escrevo isto porque recordo os outros que na Segunda Guerra Mundial nos acolheram de forma a que sobrevivêssemos às várias formas de destruição. Esses outros eram sírios, egípcios e israelitas. São imagens retocadas quanto à cor (foram coloridas), mas permanecem fiéis à ideia de que os outros somos nós e que em História não há "ses". Convém por isso não esquecer a lição.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 







(vi aqui)