terça-feira, março 14, 2017

- original soundtrack -

sem tirar nem pôr

I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job,
And then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?

Two lovers entwined pass me by
And heaven knows I'm miserable now
I was looking for a job,
And then I found a job
And heaven knows I'm miserable now
In my life
Oh, why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?

What she asked of me
At the end of the day
Caligula would have blushed
You've been in the house
Too long, she said
And I naturally fled
In my life why do I smile
At people who I'd much rather
Kick in the eye?

I was happy in the haze of a drunken hour
But heaven knows I'm miserable now
You've been in the house
Too long, she said
And I naturally fled
In my life
Why do I give valuable time
To people who don't care
If I live or die?
(Heaven knows I'm miserable now, The Smiths)
- o carteiro -
Fortuny, Carpaccio e Proust (não necessariamente por esta ordem)
Mais do que a pintura francesa (Manet e os seus espargos, O Dejeuner des Canotiers e outros) ou a holandesa (o "pano de muro amarelo" de Vermeer), a verdade é que a grande referência artística do Em Busca do Tempo Perdido (a Recherche, daqui para a frente) é a pintura italiana e veneziana (não que Veneza não pertença a Itália, mas percebem o que quero dizer), à excepção, claro da pintura de Elstir. Entre os representantes desta pintura italiana, há uma breve referência a Ticiano e Veronese, mas o nome grande - e que vai crescendo na Recherche - é sem dúvida o de Carpaccio.
"Não", dizem vocês. "Sim", digo eu.
Antes mesmo de escrever a Recherche, Proust já demonstrara interesse pela pintura de Carpaccio após a tradução de Ruskin que a refere, bem como após a viagem que empreendeu a Veneza em 1900. Viu os Carpaccio na Galleria dell'Accademia e na Igreja de San Giorgio dei Schiavoni. Nesta história, como em toda a Recherche, a realidade serve de inspiração à ficção, mistura-se com ela. Não é só Charles Ephrussi que está na base de Swann, nem Alfred Agostinelli que poderá, diz-se, estar na base de Alebrtine,1 mas também Carpaccio na base de Fortuny (embora neste caso ambos sejam reais e não ficção). Carpaccio em Proust funciona como a madalena no chá: espoleta (e não despoleta) a memória. A primeira referência a Carpaccio na Recherche surge quando o narrador Marcel fala de Oriane de Guermantes relacionando-a com a música de Wagner e os quadros de Carpaccio:

"Seus olhos azulavam como uma pervinca impossível de ser colhida e que, no entanto, me fosse dedicada; e o sol, ameaçado por uma nuvem, mas ainda despedindo, com toda a força sobre a Praça e na sacristia, seus raios de luz, dava uma encarnação de gerânio aos tapetes rubros que tinham sido estendidos para a solenidade e sobre os quais se adiantava sorrindo a Sra. de Guermantes, e acrescentava à lã deles um róseo aveludado, uma derme nua, esta espécie de ternura, de grave doçura na pompa e na alegria que eriçam certas páginas de Lohengrin, certos quadros de Carpaccio, e que fazem entender que Baudelaire tenha podido atribuir ao som do clarim o epíteto: delicioso." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água, 88)

Proust, que conhecia a obra de Carpaccio até pelo que foi dito em cima, deveria estar a referir-se a uma obra em especial que calculo seja "Incontro dei Fidanzati" do "O Sonho de Santa Úrsula":









Carpaccio
 Incontro dei Fidanzati (pormenor)
1495

Galleria dell'Accademia, Veneza

No segundo volume da Recherche volta-se a Carpaccio quando Elstir evoca as suas pinturas deste ciclo do Sono de Santa Úrsula:

"Havia torneios marítimos como agora, geralmente em honra de alguma embaixada semelhante àquela que Carpaccio representa na Lenda de Santa Úrsula. Os navios eram maciços, construídos como arquiteturas, e pareciam quase anfíbios como Venezas menores no meio da outra, quando, unidos por meio de pontes levadiças, recobertos de cetim escarlate e de tapetes persas, levavam mulheres de brocado cereja ou de damasco verde até junto dos balcões incrustados de mármores multicores onde outras mulheres se debruçavam para ver, em seus vestidos de mangas negras,cujas aberturas de forro branco eram bordadas com pérolas ou ornadas de rendilhado fino. Não se sabia mais onde acabava aterra e onde começava a água, o que ainda era palácio ou já formava o navio, a caravela, a galeaça, o Bucentauro." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: O Lado de Swann. Lisboa: Relógio d'Água, 206)
De facto, nesta pintura de Carpaccio do ciclo referido vemos que o barco no centro da pintura tem a mesma altura dos edifícios que o ladeiam. O mesmo acontece com outro quadro do ciclo, cujo título é "Arrivo dei Pellegrini a Colonia". Os barcos possuem a mesma altura e imponência dos edifícios à volta e mesmo à medida que passamos aos planos secundários, os barcos continuam a ser da dimensão das estruturas arquitectónicas.
















Carpaccio
Arrivo dei Pellegrini a Colonia
1490
Galleria dell'Accademia, Veneza 
Quando visitou Veneza em 1900, Proust descreveu as suas impressões, relativas aos Carpaccio, à sua amiga Maria de Madrazo, irmã de Reynaldo Hahn e tia de Fortuny. E quem era Fortuny? Fortuny era nem mais nem menos que o maior estilista da época. Mariano Fortuny y Madrazo, de origem espanhola, mas veneziano a partir de 1889, foi pintor, inventor e costureiro, vestindo todas as elegantes do início do século. Criou os famosos vestidos Delphos, baseados na arquitectura, escultura e cultura clássicas, vestidos todos plissados e com motivos bizantinos.
Fortuny
Vestido Delphos
1915
[Não sei porquê, mas este vestido parece o frasco de Organza da Givenchy.]
Ora é justamente a Fortuny que Marcel, o narrador, encomenda um vestido para Albertine levar a Versalhes, na noite anterior ao seu desaparecimento.
"Guardando de meu sonho de Veneza apenas o que podia referir-se a Albertine e suavizar o tempo que ela passava em minha casa, falei-lhe de um vestido de Fortuny que era necessário que encomendássemos por aqueles dias." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira. Lisboa: Relógio d'Água, 75)
"assim, os chambres de Fortuny, fielmente antigos mas poderosamente originais, faziam surgir como um cenário, e até com maior força de evocação do que um cenário, pois que o cenário ficava por imaginar, a Veneza toda atulhada de Oriente" (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira. Lisboa: Relógio d'Água, 153)
E é quando, já após a fuga de Albertine, o narrador vê em Veneza a pintura "Le Patriarche du Grado" de Carpaccio, se recorda de Albertine dessa noite em que usou o vestido de Fortuny:
(...) Carpaccio, e que essa mulher de faces avermelhadas, olhos tristes, com seus véus negros, e que nada poderá jamais, para mim, fazer sair daquele santuário suavemente iluminado de São Marcos, onde estou certo de reencontrá-la, pois ela tem o seu lugar reservado e imutável como um mosaico, seja a minha mãe. Carpaccio, a quem acabo de citar e que era o pintor ao qual, quando eu não trabalhava em São Marcos, fazíamos visitas com mais frequência, precisou um dia reanimar o meu amor por Albertine. Eu via pela primeira vez O Patriarca de Grado Exorcizando um Possesso. [...] quando senti, de repente, como que um leve aperto no coração. Às costas de um dos companheiros da Calza, reconhecível pelos bordados de ouro e pérolas que inscrevem em suas mangas ou coletes o emblema da risonha confraria à qual eram filiados, eu acabava de identificar o casaco que Albertine usava quando fora comigo à Versalhes em carro descoberto, na noite em que eu estava longe de pensar que apenas quinze dias me separavam do momento em que ela iria embora de minha casa. Sempre disposta a tudo, quando lhe pedira que partisse, naquele triste dia que ela deveria chamar, em sua última carta, duas vezes crepuscular, visto que a noite caía e nós falamos em nos separar, ela atirava aos ombros um casaco de Fortuny que levara consigo no dia seguinte e que, desde então, eu jamais tornara a ver em minhas lembranças. Ora, era neste quadro de Carpaccio que o genial filho de Veneza o utilizara, fora nas costas desse membro da Calza que o havia assinalado, a fim de lançá-lo sobre tantas parisienses que decerto ignoravam, como eu até agora, que o modo num grupo de cavalheiros, no primeiro plano do Patriarca de Grado, numas Academia de Veneza. Eu reconhecera tudo e, tendo esquecido casaco, ao vê-lo, os olhos e o coração daquele que ia, naquela noite, partir para ir com Albertine, fui invadido, durante alguns instantes, por um sentimento, da dor, logo dissipado, de desejo e de melancolia." (PROUST, Marcel - Em Busca do Tempo Perdido: A Fugitiva. Lisboa: Relógio d'Água, 106-107) 








 








Carpaccio
The Healing of the Madman
 1496
 Gallerie dell'Accademia, Veneza

O pormenor de que Proust fala é, em meu entender, este. Veja-se a semelhança entre o mesmo e um design de Fortuny:











Carpaccio
The Healing of the Madman (pormenor)
 1496
 Gallerie dell'Accademia, Veneza






















Não será por acaso que Proust faz esta associação entre este Carpaccio e Fortuny. Li que na borla do capuz (assinalada no quadrado amarelo) está escrita a expressão "Com Tempo" o que não deixa de ser paradigmático num livro que fala disso, do Tempo.

1 - Alfred Agostinelli foi o grande amor de Proust. Motorista do escritor, juntamente com Odilon Albaret, acabou por, tal como Albertine, partir.
 













Anda Toucard
Alfred Agostinelli e Odilon Albaret
1908
Biblioteca Nacional de França, Paris
 
 
- não vais mais vinho para essa mesa -

se conto esta história, é para exorcizá-la e não para me vangloriar até porque não há nada nela de que me possa gabar.

num destes dias, ao passar aqui na rua onde trabalho, um dos vizinhos disse: "sempre a correr!", ao que respondi com um daqueles clichés: "tem de ser!". Mas ele não se ficou por ali. Olhando-me de alto a baixo (que no meu caso é "de baixo a baixo" pois quando alguém começa a olhar, logo acaba) ele atira um "tens filhos?". Eu que nunca o tratei por tu e era, como se costuma dizer "só bom dia e boa tarde", tenho um problema: apanhada de surpresa digo sempre o que não possa magoar o outro. Na minha cabeça, havia uma série de histórias que poderia contar como

[tive uma filha aos quinze anos, mas tive de dá-la para adopção. os meus pais obrigaram-me. a miúda vive com os pais adoptivos no Connecticut (não me perguntem porquê, foi uma coisa que me veio à cabeça) e soube que os pais faziam rituais satânicos com os corações das ovelhas que criavam. já pedi a guarda dela, mas está complicado...]

no entanto, o que me saiu foi a verdade, a maldita verdade: "não, não tenho". O moço dispara:
"estás livre? um destes dias vou convidar-te para jantar. aceitas? é que eu tenho uma paixão inconfessável..."

[estás a confessá-la]

"por ti. És linda"

[você é linda, mais que demais...]

"e para mim, um mistério." 

[um mistério? uuuuuu.... medo...]


"Aceitas sair comigo?"

Para não lhe dizer que não, que não aceitava sair com ele, e por distracção, disse:

"obrigada". (não sei bem porquê).

"Mas aceitas?" insistiu ele. "Olha que eu sou tímido!"


[sabes lá o que é ser tímido... ]

"Depois a gente fala", respondi, para não lhe responder a verdade: "não!" Para dentro disse "merda, devias ter dito logo que não, mas tens sempre medo que te achem uma cabra..."
Até que após algumas mensagens enviadas fora de horas

"tens facebook?",

 tive de dizer:
"Nuno, não é? Bom, deixa-me tratar-te por tu. Há coisas que não podem ser ditas conjugando os verbos de outra forma. Não tenho à vontade nenhum com homens, tenho-lhes até algum medo. Eis o meu mistério. Por isso, vai à tua vida. Só quero ficar em paz com as minhas guerras. Como diz o Chico... Conheces o Chico, o Chico Buarque? Pois, como diz o Chico:

"Deixa em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção
Pode ser a gota d'água"
- o carteiro -

[1]
Esta fotografia da colecção Outono/Inverno 2017 da Marc Jacobs, baseada no estilo Hip-Hop dos anos 70 em Harlem, captada por Joel Meyerowitz. (aqui)

[2]
Este site com as revistas avant-garde mais importantes do início do século XX

[3]
Esta biblioteca. A de Eco, claro.

[4]
Mon ami, Proust! (aqui)

segunda-feira, março 13, 2017

diz que é uma espécie de poema

anseio os dias
de Verão.
as noites,
não.
fica pr'ámanhã. andei aqui às boltas com o Carpaccio (não é esse, é o pintor) e inda num resolbi o imbróglio. depois bós bendes de que se trata, mas prometo que amanhã benho botar posts

domingo, março 12, 2017

sai sentimento mau

quinta-feira, março 09, 2017

- original soundtrack -

Inútil Paisagem


 - não vai mais vinho para essa mesa -

despojos do dia I
entrar em casa à noite, abrir a porta e dizer: "querida, cheguei". ao sair de manhã, abrir a porta e dizer: "amor, vou comprar cigarros".

despojos do dia II
antes de adormecer leio sempre um poema, uma estrofe, um verso de um dos poetas de que gosto. e penso: "é bom. é muito bom. não percebi nada". de manhã enquanto me arranjo volto a ler a mesma coisa e penso: "é para lá de bom. continuo sem perceber nada".

despojos do dia III
deitar com as galinhas para acordar com as gaivotas

despojos do dia IV
entrar em casa e pensar: "esta casa precisava de... uma casa nova"
- o carteiro - 
 



















Aconteceu, por acaso, estar a meio da leitura do livro (agora acabada) quando soube do filme. Fui logo vê-lo, claro. O livro fala da Europa que se perdeu com a Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, com a Segunda. Como a confiança, a segurança, a crença no progresso e na razão deram lugar à barbárie, à desconfiança nos governantes e principalmente, a desconfiança face ao outro de que é paradigmática a instauração de limites geográficos e burocráticos. Fala de um certo laissez faire laissez passez que tornou mais fácil dois conflitos bélicos de monta em menos de 50 anos no mesmo espaço físico e com os mesmos actores. Ninguém acredita que um raio caia duas vezes no mesmo sítio. Mas tendo caído duas vezes no mesmo sítio, acreditará alguém que cairá uma terceira vez? Estes excertos fizeram-me tremer. Note-se que o livro foi escrito em antes de 1942 e que após um exílio forçado no Brasil, o expatriado Stefan Zweig e a mulher se suicidaram no “país tropical abençoado por Deus”.

“De um dia para o outro voltei a descer mais um degrau. Ontem ainda hóspede estrangeiro e, por assim dizer, um gentleman que aqui vivia dos seus rendimentos internacionais e pagava os seus impostos, e agora um emigrante, um refugee. Tinha resvalado para uma categoria inferior, embora não desonrosa. Por outro lado, qualquer visto para o estrangeiro que fosse posto naquela folha branca de papel tinha de ser expressamente requisitado, pois em todos os países se desconfiava daquele “tipo” de pessoas a que eu subitamente também pertencia, pessoas sem direitos, sem pátria que, quando se tornavam incómodas ou ficavam tempo de mais, não podiam ser expulsas caso necessário nem reenviadas para os seus países de origem como as outras. (ZWEIG, Stefan – O Mundo de Ontem. Lisboa: Porto Editora, 2004, p. 476)

“E lá ficavam à espera junto às fronteiras, lá iam mendigando à porta dos consulados, quase sempre em vão, pois que país estava disposto a receber despojados, pedintes? (ZWEIG, Stefan – O Mundo de Ontem. Lisboa: Porto Editora, 2004, p. 495)
- não vai mais vinho para essa mesa -


quarta-feira, março 08, 2017

fica para amanhã. hoje não consigo. Beijos e abraços

sábado, fevereiro 25, 2017

joana, joana, joana, joana...

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

- original soundtrack -











Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito
E de facto eu sinto
Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio.
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos
De amigos
E garanto que não beberei
Nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai
(Peito vazio, Cartola)
- não vai mais vinho para essa mesa -

lamento, mas não tenho nenhuma parvoíce a assinalar. fica para a próxima
- o carteiro -

o espaço da gente

Há muitos anos participei numa escavação arqueológica de um castro. O que me chamou a atenção foi a dimensão das construções: minúscula. Interrogava-me como seria possível alguém dormir ali. Mais tarde, mais informada, visitei Conímbriga. As dimensões exíguas repetiam-se se bem que agora a habitação das camadas elevadas possuísse áreas destinadas a actividades: o gineceu (divisão para as mulheres), o androceu (divisão para os homens), o espaço para o fogo, o triclinium (para receber os convidados), o atrium, etc. Ainda assim - e não obstante essa existência de espaços para diferentes funções, algo que não acontecia com os castros - as divisões da casa romana pecavam (achava eu), por exíguas. E na Idade Média, o mesmo acontecia, se bem que com o tempo tudo isso foi sendo alterado.

Era natural que não existisse muito espaço dentro de um castro: não havia a noção de saúde pública, logo não havia rede de esgotos ou mesmo latrinas fora ou dentro da habitação; não havia computadores logo não havia escritório; o tempo era passado a procurar comida ou a tratar dela (gado) e por isso a vida familiar devia ser muito limitada. No que concerne à antiguidade, a vida na pólis e a pólis em si eram mais importantes do que o cidadão, o indivíduo. Havia um espaço para o fogo que deveria estar presente para os deuses, havia um espaço para eles, um espaço para elas, cozinha e latrinas, havia - em alguns casos - sistema de esgotos, mas as dimensões de cada uma destas divisões era de facto muito pequena. Porquê? Porque esta gente tinha poucos bens e uma noção de habitação diferente da nossa. Esta gente não tinha coisas. Já leram algum inventário do século XVII ou visitaram o Mosteiro de Arouca? tanto num caso como no outro encontrarão evidências de que os nossos antepassados eram muito parcos em bens. Não havia camas, não havia mesas; ou seja, quando ouvem a expressão "fazer a cama" ou "pôr a mesa", isso tem uma razão de ser. As camas não eram objectos, mas lugares. Geralmente lugares da casa perto do fogo, perto do lume, onde se cozinhava. dormia-se em enxergas. As mesmas que se usavam para dar à luz, fazer filhos, receber convidados, comer... Da mesma forma, não se punha a mesa: um nobre que andasse de palácio em palácio não possuía, em cada um dos seus palácios, mobília completa. Não, a mobília era carregada com o séquito para outro palácio. Daí a expressão "pôr a mesa".
 
Também na Idade Média as casas eram pequenas e mal arejadas. Existia a ideia que o ar trazia doenças, e por isso, quanto maior fosse a casa, pior seria. As janelas eram altas para evitar os roubos e por isso o interior das casas era naturalmente lúgubre, a combinar um pouco com a ideia de que tudo deveria ser feito Ad Majorem Gloria Deo. Talvez por isso as grandes e arejadas construções da Idade Média tenham sido as religiosas. À medida que surgem as preocupações com a higiene, surgem casas-de-banho e espaços mais arejados, maiores; à medida que as camadas mais baixas da sociedade começam a questionar o seus governantes e exigir melhores condições de vida, surgem construções maiores; à medida que uma burguesia endinheirada ascende e se interessa pela literatura, pelo teatro, pela política e recebe em casa, surgem pequenas bibliotecas e espaços para tertúlias; à medida que a ideia de intimidade e privacidade se instala (ideia que nem sequer tem uma palavra em comum em todas as línguas), exigem-se quartos para pais e filhos. E chegamos onde estamos hoje: somos cada vez menos, há cada vez menos filhos e as famílias são cada vez menores. Não obstante, temos casas cada vez maiores e acumulamos mais tralha. Material e da outra.
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates
 
ou
 
- o carteiro -

antes e depois ou como "das coisas nascem coisas, já dizia o Bruno Munari e muito bem. ora boa noite, senhoras e senhores. hoje trago-vos um post que começa por um "antes e depois", mas que evolui para um "carteiro". Porquê? Porque sim. O antes é este

Abadia de Westminster
Século XIII
e o depois, este.

Hand Holbein
The Ambassadors (pormenor)
1533
National Gallery, Londres

Como podem ver pelas legendas, trata-se do pavimento da Abadia de Westminster que, segundo os entendidos, mimetiza o chão do edifício inglês ou esta história não tivesse tudo a ver com Inglaterra e o seu poder no século XVI. À primeira vista, o quadro de Holbein fala de poder e riqueza, mas a célebre anamorfose da caveira, em baixo leva-nos a reconsiderar a ideia inicial: talvez esta tela seja mais do que aquilo que pretende ser; talvez seja uma vanitas e nesse caso nos tente mostrar que a morte é mais poderosa do que qualquer riqueza ou poder político. Esta é sem dúvida uma cena montada onde cada objecto tem um papel específico.


Hand Holbein
The Ambassadors
1533
National Gallery, Londres

Vamos primeiro aos tecidos, aos padrões: as três grandes faixas horizontais do quadro mostram padrões:
o cortinado




o tapete








o pavimento






 
Esta demonstração de riqueza tem eco em outros pormenores do quadro como nas vestes que ambos usam. Num dos casos temos pele/pelo que não é de arminho, segundo me parece, mas que segundo sabemos não estaria ao alcance de qualquer um. No outro caso, a incrível textura do pelo da gola, bem como a textura e padrão da capa que um dos embaixadores veste:








































 
Estes homens, que eram sem dúvida, ricos, tinham também conhecimento e poder. Eram também jovens: o do lado esquerdo tinha 29 anos (está escrito na adaga que ele segura) e o outro tinha 25 (vemos no número no livro sob o seu braço). Estes homens são franceses, como o prova a insígnia da Ordem de São Miguel instituída por Luís XI de França, que um deles tem ao peito (São Miguel a matar o dragão)
































































A referência feita ao conhecimento, vem dos objectos que encontramos na prateleira. Se as suas vestes e o cenário em que se encontram, nos falam da sua riqueza e do seu mundo estático, com certezas, os objectos falam da sua visão do mundo, dos valores que partilham. Podemos dizer que na prateleira de cima, tudo está em ordem e que de facto, essa prateleira nos fala do que estes dois homens dominam. Em baixo, na prateleira de baixo o mesmo não se passa e os objectos, para além de desalinhados, incompletos ou estragados, são de outra natureza. Ora vejamos o que se passa na prateleira de baixo:
 
a guitarra com uma corda partida












o conjunto de flautas, incompleto


 
o globo de pernas para o ar…

Tudo isso é o reflexo de uma França em crise. A França havia sido sempre uma nação poderosa, mas agora, à data da pintura, tornou-se uma nação ameaçada pelo poder dos seus rivais sendo que os mais perigosos são Portugal e Espanha. Os dois reinos dividiram, como se sabe, o mundo em duas partes. França está ameaçada por todos os lados, com inimigos que não a deixam ser a potência que sempre foi. O papel destes dois jovens é salvar a honra francesa, restabelece-la e para isso precisam de alguns trunfos que podem ser vistos neste quadro e que estão ligados à parte de cima da prateleira. O primeiro trunfo, ainda na prateleira de baixo é um hino de Lutero, fundador do Protestantismo. Se apoiar as facções protestantes nos reinos rivais, a França consegue semear a discórdia entre Católicos e Protestantes e assim enfraquecer o poder que estas potências têm no mundo e enquanto seus vizinhos.










O segundo trunfo é o das suas relações com vizinhos do mundo islâmico. Quando Holbein pinta este quadro, os muçulmanos estão à porta da Europa, o que não impede os embaixadores de negociar com eles, obrigando-os a mover as suas forças e desta forma, ver a sua posição fortalecida na Europa.















O terceiro e último trunfo é... a vida amorosa do rei inglês Henrique VIII, simbolizado pelo pavimento que, como dito acima, mimetiza do pavimento da Abadia de Westminster. De facto, a França apoiou o rei na sua decisão de repudiar a sua primeira mulher e casar com Ana Bolena. Esta foi a forma que o reino francês teve de criar atritos entre a Inglaterra e os vizinhos alemães e de certa forma, tornar a sua posição mais favorecida dentro do mapa da Europa. E com isto, a França acaba por embarcar numa "nova religião" (não será uma nova religião, mas uma nova visão do Cristianismo); ou seja, o Protestantismo, na medida em que lhe é mais favorável no xadrez geo-político. Estas ideias de transgredir valores humanos ou religiosos haviam sido divulgadas um ano antes com a publicação do livro de Maquiavel, "O Príncipe".
 
A prateleira de cima, fala-nos do conhecimento, mas do conhecimento de coisas mensuráveis, o conhecimento científico. Temos por isso mapas de estrelas e constelações
 
 














Um quadrante náutico




















um astrolábio




















um calendário cilíndrico


e um outro instrumento (um sólido de dez faces não regulares) cujo nome e função desconheço. O que retiramos disto é que todo o conhecimento, poder e riqueza são em vão já que a morte é o fim de tudo. Mas pode haver salvação, redenção e essa vem do alto (do canto superior esquerdo do quadro), de Cristo:



vou embora. beijos e até breve
ah... não se esqueçam de lavar a dentuça, a papuça e beber um leitinho antes de ir dormir.

sábado, fevereiro 18, 2017

27 de Abril de 2016
27 de Agosto de 2016

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

- b' day -

pronto, é isso. mais um. obrigada aos "mais que as Graças e menos que as Musas"*.

*as Graças eram três; as Musas, nove

quarta-feira, fevereiro 15, 2017

aquele momento em que desligas a luz e ficas no escuro, em silêncio, a identificar todos os sons, principalmente o do coração a bater encostado ao colchão, como um exército a cavalo. aquele momento em que duvidas das certezas de ontem e achas que, o que antes tomavas por elogio é na realidade, e agora, troça; o que antes parecia respeito é na realidade desprezo. só algo se mantém: a culpa que te atribuis.

terça-feira, fevereiro 14, 2017

- o carteiro -

um dia com postagens dedicadas ao 'mor. seja lá o que isso fôr.
- original soundtrack -

pô! qué qué isso Chico?! Cê qué mátá eu do coração?











Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás se fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

(Eu te amo, Chico Buarque)
- não vai mais vinho para essa mesa -

- então, e tu?
- eu o quê?
- não namoras?
- não.
- porquê? não percebo, deve andar tudo cego!
- não namoro porque... trabalho ao Sábado.
- hã?
- sim, trabalho ao Sábado. Ora toda a gente sabe que aos sábados é que se namora. Se eu namorasse, não podia namorar ao sábado, porque trabalho. logo, teria de namorar ao domingo. como ao domingo é dia de ir para casa da sogra fazer rissóis para a semana, é dia de ir comer tremoços para a beira-mar enquanto se houve o relato, é dia de... ir ao Continente comprar polares da Modalfa em promoção... não posso namorar.
- o carteiro -
vocês perguntam, e muito bem, porque é que já não faço posts com "sustânça". eu respondo a verdade e nada mais do que a verdade: não tenho tempo. e ultimamente dediquei-me a uma tarefa pantagruélica, que nunca terá fim, temo, de fazer a árvore genealógica da família mais disfuncional de sempre. Uma vez que estamos "in the mood for love" e uma vez que do amor novos seres brotam, eis que surge a genealogia dos deuses gregos. Como disse, isto é um trabalho sem fim e, certamente, com outro modus operandi que não o por mim escolhido. A fonte foi a Teogonia do Hesíodo interpretada pelo Pierre Grimal e o pseudo-Apolodoro. Há nomes que não constam da lista como da Penélope, Telémaco e acho que até do Ulisses, mas foi o que consegui fazer. Por isso não postei nenhum texto com imagens anotadas e ampliadas, daqueles que vocês gostam e eu gosto ainda mais. Desculpem, mas para hoje é o que há. beijinhos às famílias.


- o carteiro - 

no dia de São Valentim o pessoal vai todo jantar fora. elas esperam um anel no dedinho, eles esperam que aquilo tudo não sai muito caro. os restaurantes enchem-se: o amor dá fome! [por acaso acho que não. acho que estar apaixonado é a melhor forma de emagrecer. e sobre isto havia tanto para contar... mas não pode ser.] O que interessa dizer é que sim: no dia de São Valentim - que as lojas, supermercados e restaurantes antecipam e anunciam desde os Reis -, os enamorados perdem a cabeça e para além de presentes da Tous oferecem-se o jantar protocolar que anuncia uma noite agitada. ou pelo menos mais longa. as ementas são a preceito: algumas afrodisíacas, outras apenas parvas, como estas. são receitas de um livro de culinária para enamorados, anos 80, com a chancela Barbara Cartland, essa Liberace da etiqueta amorosa. A sôra Da. Barbara aconselha uma ou duas entradas:





































(com os camarões a tentarem sair pelo tomate fora como um deles se encontra a tentar sair da relação), um prato principal que pode ser de carne ou peixe:
 
(caliente, carino), e sobremesa, porque há que adoçar a vida:

Se por esta altura ainda ninguém tiver vomitado nem tiver tido um ataque provocado pelas cores estridentes dos pratos, quer dizer que é uma relação com futuro. E o futuro é já a seguir!
- o carteiro -

o amor morreu. mas... viva o amor?

Há aquela história que diz: o rei morreu, viva o rei; ou seja, "rei morto, rei posto". No amor diz-se que "sarna de cão cura-se com pelo de outro cão"; ou seja, "amor morto, amor novo". Depois do fim da História (Fukyama) do Fim da História da Arte (Hand Belting), do fim da Pintura, diz-se que estamos a assistir ao fim do amor (Byung-Chul Han - The Agony of Eros). Ao que parece, a pornografia está a matar o amor, bem como as redes sociais que exaltam o "eu". Ora o amor necessita da anulação do "eu" para se poder exaltar. Há até aquela célebre passagem de Coríntios que diz: "O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá (1 Coríntios 13:4-8).
Mas o amor já não é o que era. Ou melhor "a notícia da sua existência foi um exagero". O amor existe, mas não é de facto necessário para o casamento. Talvez até atrapalhe. Mas houve um momento na História (dois, aliás) em que passámos a acreditar que sim, que era importante procriar, beijar, ajudar, amparar na velhice... alguém que amássemos, em vez de vivermos da juventude à velhice com alguém que nos era designado. Por um lado a Idade Média e os romances de cavalaria. Por outro a Reforma Protestante que colocou o ênfase no indivíduo, nas suas escolhas. É neste sentido que acho que a Reforma Protestante foi importante para a disseminação da ideia de "casamento com amor" desde que tal não colocasse em causa a ideia mais importante e que era a de que o trabalho tinha ligação directa a Deus.

Obviamente o amor não morreu. Toda a gente o quer sentir; toda a gente quer sentir-se amada, mesmo que isso signifique sofrer. Já amar... isso é outra coisa. Amar pressupõe a anulação do ego: para amar temos de esquecer o narcisismo e adoptar o altruísmo. Já não se ama assim. Talvez nunca ninguém tenha amado assim. E dar sempre sem receber em troca, nem esperar de facto nada em troca, parece-nos coisa de otário. Querer não implica ser querido. Ante isto Freud e a sua teoria do Eros e Tanatos faz muito sentido: a vida deveria ser um equilíbrio entre o desejo e a morte, entre o motor da vida (eros) e a inevitabilidade da morte (tanatos). O amor não morreu, mas está de facto em agonia. Numa sociedade neo-liberal em que o indivíduo é (ou deve ser), capaz de tudo, tem em si todas as possibilidades, não vencer no amor é falta de jeito ou de vontade. No primeiro caso, é "vergonhoso" e no segundo, admirável. E isto limita o amor porque ser mal sucedido nesse âmbito é feitio e não defeito. O amor é o erro que todos querem cometer. Como diria o Woody Allen: o coração quer aquilo que quer. e ponto. 

segunda-feira, fevereiro 13, 2017

só amanhã

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

sai pensamento mau,
sai pensamento mau,
sai pensamento mau.
 - o carteiro -

ontem, ou anteontem, a administração Trump fez chegar aos "media" uma lista com 78 ataques terroristas que, segundo a própria administração, não tinham sido devidamente escalpelizados ou até noticiados pelos meios de comunicação social. Podem ver alguns abaixo:






















É tão ridículo publicar uma lista que refere que os atentados de Nice, Paris ou Orlando foram mal noticiados ou escondidos da opinião pública, como publicar uma lista onde a palavra "atacante" ou "atacantes" está mal escrita 18 vezes.

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

"A esperança adiada exaspera o coração". (Provérbios 13: 12)
 tudo está bem quando acaba bem

O Shakespeare tinha obras com títulos muito úteis. Um deles é "muito barulho para nada". O outro é este: "tudo está bem quando acaba bem". Isto quer dizer que não importa os percalços do caminho; o que interessa é chegar à meta. (Por acaso acho que o mais importante não é chegar à meta, mas fazer o caminho.). Para Elle, a meta será receber o Óscar para melhor actriz. Não me venham com m*****: não necessito de ver os outros filmes para saber que é a Isabelle Huppert que deve ganhar o Óscar de melhor actriz. Da mesma forma que não necessito de ler todos os livros do Gabriel García Márquez para perceber que o Realismo Mágico não me diz grande coisa. Sim, a Meryl Streep é fantástica mesmo a fazer o pino, mas a Isabelle Huppert merece. Merece pelo Elle e pelos outros filmes que fez. Merece porque consegue ser fria, sarcástica, impiedosa, risível e, num Deus ex-Machina, fazer-nos sair da sala totalmente confusos: é ela a vítima ou somos nós? É que no fim, nós saímos do cinema desgastados, confusos, sem saber o que dizer e ela... ela sai airosa, reconciliada com todos, mesmo com aqueles que manipulou. Ou será da nossa imaginação e ela não manipulou o filho, o vizinho/violador, o amante? Será que ela, enquanto professora de piano não manipulou a mãe? As personagens dos dois filmes têm muitas semelhanças e eu, que adoro A Pianista, não posso deixar de adorá-la neste papel que não é para meninos. Neste caso, para meninas. Temos a cena da masturbação do amante no escritório, semelhante à da masturbação do jovem talento da música na casa-de-banho e que ela leva a cabo como se de uma punição se tratasse; temos a cena da fantasia sexual com o vizinho (enquanto ela o espreita da janela) e a cena em que a Erika Kohut urina atrás de um carro (mais uma vez a confusão: ela chora, quando urina, de dor - já que se cortava nas virilhas para simular o período menstrual - ou de prazer? Ela cortava-se para sentir dor ou para fingir, ante a mãe, que era uma outra pessoa, uma outra mulher?) E a personagem de Elle, gosta do jogo com o violador ou quer levá-lo ao desespero? Procura vingança, ou prazer? Ele é feita da mesma matéria de que o pai é feito? Pode a violência ser hereditária? É que no fim, tudo acaba bem. 

E eu queria muito (e acho) que, em nome da diversidade e de um papel que inverte a lógica da vitimização, ela ganhasse o Óscar para melhor actriz. Aí sim, tudo estaria bem.

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

- original soundtrack -

Quem gostar, muito bem. Quem não gostar, muito bem também.











Addio, del passato bei sogni ridenti,
Le rose del volto già son pallenti;
L'amore d'Alfredo pur esso mi manca,
Conforto, sostegno dell'anima stanca
Ah, della traviata sorridi al desio;
A lei, deh, perdona; tu accoglila, o Dio,
Or tutto finì.

Le gioie, i dolori tra poco avran fine,
La tomba ai mortali di tutto è confine!
Non lagrima o fiore avrà la mia fossa,
Non croce col nome che copra quest'ossa!
Ah, della traviata sorridi al desio;
A lei, deh, perdona; tu accoglila, o Dio,
Or tutto finì.

(Addio al Passato, La Traviata, Verdi)
- não vai mais vinho para essa mesa -















 
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates
e
- o carteiro -
 
caros
olá a todos, como estão? estas postagens não podem ser como eu desejaria, mas vamos lá ver o que se consegue fazer. Hoje o "ars longa, vita brevis" e o "carteiro" misturam-se pois isto é simultaneamente um "antes e depois" e uma pequena "investigação". Bom, na verdade, esta investigação foi feita já há algum tempo e o resultado, apresentado na revista Science News em 2014, mas eu achei que merecia um post. Segundo a mesma revista, foi criado um algoritmo que permite a computadores analisar pinturas de épocas e artistas diferentes e estabelecer os pontos em comum entre elas. A revista apresenta o exemplo do paralelismo entre o Fréderic Bazille e o Norman Rockwell, mas há mais. Ainda estou a tentar descobrir forma de ler o resto do artigo sem ter de me registar. Tenho a certeza que algures, uma alma caridosa disponibilizou essa informação para os totós como eu. Então cá vai o que o algoritmo descobriu:
este é o antes



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Frederic Bazille
The artist's studio, Rue de la Condamine
1870
Musée d'Orsay, Paris
 
e este, o depois (que por sua vez tem outro antes):
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Norman Rockwell
Shuffleton's Barbershop
1950
 
Este Norman Rockwell vai muito bem com este tempo de tempo de híper-nacionalismo e paternalismo bacoco que a América vive. Não me admiraria se houvesse uma revalorização, das pinturas dele. Mas não era disso que eu queria falar. Queria falar - isso sim, da composição. Vamos lá, novamente, ao antes:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Frederic Bazille
The artist's studio, Rue de la Condamine
1870
Musée d'Orsay, Paris
 
 
e agora, ao depois:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Norman Rockwell
Shuffleton's Barbershop
1950
 
Vamos lá ver: a amarelo, a braseira do lado direito da pintura; azul, no centro, o conjunto de figuras humanas; a vermelho, do lado esquerdo, a janela; a verde, no canto esquerdo, a diagonal (que numa das pinturas é das escadas e na outra, da vitrina; a rosa/roxo, a cadeira, que num dos casos é uma cadeira normal e na outra, uma cadeira de barbeiro.
Ou seja, já está tudo inventado!
Beijos e abraços. Não apanhem frio, lavem os dentinhos antes do ó-ó e não falem com estranhos.


- o carteiro -

bom, como não podia deixar de ser, hoje vamos falar da auréola, em vez do nimbo.
Tal como dito anteriormente, a auréola está para o corpo, como o nimbo estava para a cabeça.
 
A palavra auréola vem do latim aureola, o diminutivo de aura que por sua vez significa a luz do dia tocada pela brisa da manhã. Horácio por sua vez usava a palavra para designar um odor doce ou aroma leve. A palavra aura por sua vez vem do grego, de
αύρα, que por sua vez quer dizer "brisa suave, zéfiro, vapor... Estes significados apenas a um: sopro luminoso indicando a natureza da auréola que é, no fundo, uma chama e expressa, na iconografia, através de ondulações ou linhas que representem raios de luz. Aliás, no Salmo 103, v.2 lemos o seguinte: "Estás envolto num manto de luz  e estendeste os céus como um véu." Outras denominações podem ser dadas à auréola: "oval divina", "amêndoa mística", "mandorla" (em italiano), etc... Isto pressupõe que a auréola seja oval: de facto, assim como o nimbo segue a forma da cabeça, também a auréola segue a forma do corpo. Verifica-se portanto que a auréola apresenta a forma de uma oval alongada quando a figura humana está de pé, e circular ou oval quando a figura está sentada. O que não quer dizer que não se possa encontrar auréolas em quadrifólio, como estas aqui:

 
 











Catedral de Auxerre
Século XII



















Catedral de Chartres

Claro que, as intenções são diferentes: no primeiro caso Jesus tem o livro aberto e com a outra mão faz um gesto de bênção; no segundo caso Jesus tem mãos e braços abertos a mostrar as chagas. A auréola pode ser, como referido acima, uma vestimenta de luz ou uma emanação de luz do corpo divino. A imagem que mostro abaixo é uma reconstituição da imagem original, mas sim, é imagem de Deus (e não do seu filho). Deus é aliás, uma das poucas "personagens" retratada com auréola. É que enquanto o nimbo é usado por mais personagens, a auréola está limitada ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, sendo que por vezes pode ser aplicado a Maria.




















Manuscrito de Saint Sever (pormenor)
Século X

Há vários tipos de auréola. A redonda (com o arco-íris aos pés de Cristo. Calculo que seja o arco-íris. Pelo menos tem 7 voltas):



















Anónimo
1240-1300
Baptistério, Florença


A raiada:



















Boccaccio Boccaccino
Christ in Majesty with the Patron Saints of Cremona
1506

Catedral, Cremona

Em forma de amêndoa:



















Século XIII
Musée de Cluny

Bem, vou embora. Não tive tempo para mais.