sexta-feira, dezembro 22, 2017

acho que estou mais magra. o que no meu caso não é nada bom.
- original soundtrack -

Caro John Flores
Escolha musical completamente certa! Já que estamos numa de David Lynch, fica aqui um cromo para troca ("Don't let yourself be hurt this time / Don't let yourself be hurt this time")

quarta-feira, dezembro 20, 2017

- original soundtrack -

isto é tão bonito que até dói:

(...)
The power of love
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burn desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal
(...)

(The Power of Love, Frankies Goes to Hollywood)
- não vai mais vinho para essa mesa -







- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

antes e depois ou "até que enfim chegaram gajas boas!" ou "mais um duelo entre impressionistas, desta vez para a primeira liga do século XIX, categoria pincel de pelo de marta". Pois eis-nos chegados a mais uma edição do torneio que coloca frente a frente nomes do impressionismo francês. O primeiro torneio deu-se em 2012 e opôs Manet a Renoir (ganhou Manet), o segundo torneiro, realizado em 2015, teve como protagonistas Renoir e Monet (ganhou Monet) e este terceiro tem como intervenientes Monet e Renoir. Não façam as vossas apostas pois sabemos que ganha Monet; ou seja, Renoir perde sempre porque não gosto de Renoir (ah pois é!)
Como o público destes torneios tão bem sabe, os impressionistas gostavam daquele calor humano "gostoso" e vai daí pintavam lado a lado. Eram dados ao "cunbíbio" e, acima de tudo, miúdos com idades muito aproximadas que partilhavam os mesmos espaços físicos, interesses e forma de ver a arte. Esta coisa de pintarem as mesmas cenas, de pontos de vista ligeiramente alterados, vem corroborar esta ideia de pintarem simultaneamente, não para competirem, mas para aprenderem uns com os outros. E com quem é que aprendemos? Com os mais velhos. De facto, dos impressionistas franceses, Monet era uma espécie de líder por ser também mais velho. Neste quadro, como em outros do pintor, Monet é mais  suave que Renoir sem ser delicodoce, algo típico de Renoir que me faz detestar os quadros dele. É tudo muito pastel, muito sentimental... e isso não me agrada. Parece-me que Monet conseguiu melhor resultado do que Renoir pelo enquadramento: em Renoir - e isto somente em comparação com o outro quadro - a jarra fica atravancada naquele rectângulo demasiado pequeno e as cores dramáticas não ajudam. É muita informação para pouca dimensão. Já o quadro de Monte respira liberdade, equilíbrio e até dinamismo.
O impressionismo é mesmo assim e no final ganha o Monet.




















Monet
Still life with flowers and fruit
1869
J. Paul Getty Museum




















Renoir
Mixed flowers in a earthnware pot
1869
Museum of Fine Arts, Boston
 
- o carteiro -
 
 






















 
- o carteiro -
 
tenho ouvido ultimamente dizer, a propósito desta denúncia simultânea de casos de abuso sexual, que há diferentes níveis de gravidade. quer isto dizer que, há abusos mais graves do que outros. Segundo a lei, existe uma pena diferente para diferentes tipos de abuso sexual, o que pressupõe diferentes graus de gravidade. Para quem os sofre, é tudo igual. Nem toda a gente entende isto, mas passo a explicar, sem dramas:
quando tinha doze anos, sentei-me no colo de um amigo da família, que com o polegar fez uma "festinha" no meu pipi. morri de vergonha.
quando tinha 16 entrei no carro de um professor que me levou para o meio de um pinhal. morri de medo.
ou seja, não há diferença entre uma coisa e outra: morrer de vergonha ou morrer de medo tudo é morrer. Estas expressões ("morrer de vergonha" e "morrer de medo") são as correctas. Não morremos de facto, mas dentro de nós alguma coisa morre: passamos a acreditar que aquele tipo de contacto físico é o único que merecemos ter na vida.

sábado, dezembro 16, 2017

terça-feira, dezembro 05, 2017

- original soundtrack -

(...)
Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer...

(Sábia, António Carlos Jobim)
a confirmar-se a notícia, é uma pena.


quarta-feira, novembro 29, 2017

Joana, Joana, Joana, Joana...
- original soundtrack -

(...)
If you're so funny
Then why are you on your own tonight?
And if you're so clever
Then why are you on your own tonight?
If you're so very entertaining
Then why are you on your own tonight?
If you're so very good looking
Why do you sleep alone tonight?
I know because tonight is just like any other night
That's why you're on your own tonight
With your triumphs and your charms
While they are in each other's arms
(...)

(I know it's over, The Smiths)



- o carteiro -

quem tem amigos, não morre sem ter o que ler





- o carteiro -

Li quase tudo que havia para ler do Eça: A Relíquia, Os Maias, A Ilustre Casa de Ramirez, A Cidade e as Serras, O Mandarim, Conde de Abranhos, A Capital, o Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, O Mistério da Estrada de Sintra, os contos, Alves e Cia, e até as Vidas de Santos. De uns gostei (A Relíquia, Os Maias, A Cidade e as Serras), de outros nem por isso (A Ilustre Casa de Ramirez, Mistério da Estrada de Sintra)... Sempre me admirei que não se celebrasse mais a obra de Eça. Sempre me admirei que a maior parte das pessoas com quem privava achasse Eça "uma seca". Eu acho uma delícia e apesar de pensar que um escritor escreve sempre o mesmo livro, não penso isso dos livros do Eça. Poderíamos, é claro, associá-los e categorizá-los:
- Os Maias e a Ilustre Casa de Ramirez - sagas familiares;
- A Capital, O Crime do Padre Amaro e A Relíquia - o tipo que acha que a sociedade o injustiça (neste âmbito A Capital assemelha-se muito às Ilusões Perdidas de Balzac: rapazes da província que se sentem especiais e cujas famílias se endividam para os mandar para a urbe em busca de glória e dinheiro. Os moços não conseguem vencer em parte porque se tornam hedonistas, em parte porque estão formatados para modelos estéticos bacocos, vivem entre o amor de uma prostituta e a protecção de uma grande dama e acabam por regressar sem glória e sem dinheiro ao lar que os viu partir, maldizendo tudo excepto o seu orgulho e preguiça.)
- O Primo Basílio e Madame Bovary de Flaubert (o adultério sob o ponto de vista de uma mulher)

A Cidade e As Serras é porém incomparável com qualquer outro por abordar uma questão que não se prende com a política, nem com as relações amorosas, nem com o talento individual, as questões do génio, a religião, a corrupção... enfim, o que é habitual em Eça. A Cidade e as Serras fala de um certo cansaço que a vida moderna nos causa, fala de um fastio das coisas, de um regresso à natureza, às origens, ao essencial. As serras de que Eça fala no livro existem e estão hoje assinaladas - ainda que pobremente. Num destes dias ali na M581, em Abelhal, de sapatilhas e leggings, fiz-me à estrada para ver os caminhos de Jacinto. Obviamente perdi-me pois ia mal preparada: sem água, telemóvel e com um mapa muito incompleto. Pensei às tantas, entre Sequeiros e Favais, que ali seria um óptimo sítio para ser violada, morta, desmembrada e atirada aos cães agrilhoados a correntes curtas e pesadas. Improvisei xixis no mato, meti-me por caminhos sem saída, perguntei em povoações qual a melhor rota... Em Favais, uma pequena multidão curiosa, abeirou-se de mim e duas senhoras comentavam:
"é pequenina, mas jeitosinha". 
E isto, à falta de um mapa, deu-me vontade de continuar até à EN 108 em Paredes de Cima, seguir para Agrelos e voltar a Enxames, passando ao lado da Fundação Eça de Queirós por falta de cartão de crédito. Muito bem preparada, portanto. O que vi foi um pedaço desses caminhos percorridos por Jacinto - percorridos por Eça, na pessoa de Jacinto. Caminhos em que as ramadas gordas e desordenadas tombam para a estrada e as uvas se esborracham no chão, currais em ruínas de onde de ouve o mugido de uma vaca, casas em locais improváveis e com brasões escaqueirados, pequenos farrapos de cortinas bordadas e voar de uma janela partida, gente muito pobre que espera com avidez a chegada da carrinha do pão, gente muito rica que se protege em casas de revista nos pontos mais altos "das serras", pacotes de "Planta" a fazer de vasos para "Espadas de São Vicente", uma ou outra fonte com o seu fiozinho de água da praxe a chorar na sombra. Enfim, uma delícia. 

segunda-feira, novembro 27, 2017

- original soundtrack -




















He left no time to regret
Kept his dick wet
With his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry
Get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked
I'll go back to black

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us
(...)

(Back to black, Amy Winehouse)

- não vai mais vinho para essa mesa -
- o carteiro -

Pois é... pois é... Um destes dias estava a falar com alguém que, no seguimento daquela conversa, me disse "as relações amorosas são muito complicadas". Ao que eu pensei "mas toda a gente quer ter uma!". Milhares de anos de homo sapiens e continuamos a consultar os astros, as cartas, as borras de café e os amigos para percebermos um pouco do que é o amor. Nem sempre foi assim. Nem sempre o amor teve a importância que tem hoje. Todos o sentiram, com ou sem mensagens no telemóvel, com ou sem casamento, com ou sem postais ilustrados. Mas ele não era condição sine qua non para uma relação. Aliás, o amor e a paixão estavam fora dessa instituição onde sobressaíam interesses económicos e relações de poder, que era o casamento.

O amor - com acções que hoje consideramos serem dignas de aplicadas ao amor - surgiu na Idade Média germânica, onde a mulher gozava de outro estatuto, e no seguimento do culto da Virgem (que dava à mulher outros papéis que não somente o de procriadora. Acredite-se ou não, o culto do Virgem fez alguma coisa pelas mulheres, numa altura em que o papel delas na sociedade romana tinha sido esquecido). E foi a cavalaria que proporcionou essa veneração - não respeito nem paixão, mas veneração, o que é diferente - pelas mulheres. As mulheres da Idade Média viviam oprimidas pelos casamentos que não desejavam, pelos maridos que lhes batiam e pelas famílias que as controlavam. Veja-se o que Brunilde diz a Hagen na Canção dos Nibelungos, a propósito de Siegfried: "Sofri por isso muitos males / Pois, por castigo, me macerou o corpo". Mesmo as mulheres da corte eram controladas. Da família às roupas, tudo era opressão. Na corte espanhola de Filipe II a etiqueta era tão apertada que a mulher não podia sorrir ou olhar pela janela sem ser avisada pela camareira-mor das faltas que uma dama da corte não podia cometer. Mesmo as damas de honor tinham quem as vigiasse. Era a guardadama que, tal como as damas de honor, era virgem ou viúva. Nenhuma mulher casada podia servir uma grande dama espanhola. Havia galanteadores oficiais, claro, solteiros ou casados, jovens ou velhos e cujo propósito era tornar a existência daquelas almas, mais suportável. Os galanteadores oficiais podiam ver as damas em ocasiões especiais - quando estas se mostravam fora do palácio. Fora dessas ocasiões, vagueavam pelo exterior do palácio à espera que a dama surgisse à janela e aí estabelecia-se uma comunicação gestual entendida pelos dois apaixonados.

Os homens nobres possuíam terras e combatiam. Quando não havia o que combater, era nobre dedicarem-se a damas. Um cavaleiro sentia-se mais digno de si, se fosse considerado um serviteur d'amour do que um guerrilheiro. Era um jogo ridículo que ambas as partes jogavam muito bem: elas desprezavam-nos, exigiam sacrifícios físicos e provas de amor inimagináveis sem lhes darem garantias do que quer que fosse; eles faziam todos os sacrifícios só para lhes tocarem a orla do vestido e podiam viver uma vida sem ver o seu esforço reconhecido. Debatiam-se com outros homens em duelos, vestidos por vezes somente com a camisa da dama que representavam (elas davam-lhes amuletos que eles penduravam nas lanças e nos cavalos e que, por vezes, vestiam. Chamavam-se faveurs ou emprises d'amour.  Geralmente a camisa era vestida por cima da armadura, mas quando a dama exigia que o cavaleiro fosse só com a camisa para a liça, que remédio! Era morte quase na certa, mas alguns devotos não deixavam fugir um desejo da dama), escreviam-lhes versões e com sorte (ou azar, depende da prespectiva), poderiam ter como horizonte voltar a vê-la, voltar a falar-lhe, se regressassem com vida de batalhas ou das Cruzadas. Não eram relações proibidas, mas antes aceites pelas comunidades e fomentadas até pelos maridos das belas damas, maridos esse que poderiam venerar outra dama, também ela casada. As solteiras eram vistas como fraco investimento. Não era no entanto um jogo sem regras. Havia fases própria que, um cavaleiro que pretendesse dedicar-se a uma dama, tinha de superar. Eram elas:
- Feignaire: primeiro momento em que o cavaleiro não revelava os seus sentimentos;
- Pregaire: segundo momento em que o cavaleiro revelava à dama o que sentia;
- Entendaire: terceiro momento que correspondia à aceitação, por parte da dama, da devoção que o cavaleiro lhe dedicada. Alcançado este estatuto, o cavaleiro tinha de dedicar-se a um período longo em que fornecia provas à sua amada. Após isto e caso esta as aceitasse, o cavaleiro tornava-se seu servieur. Tudo isto estava revestido de aspectos típicos da vassalagem da Idade Média, tanto que a cerimónia em que a dama aceitava o seu servieur e este jurava servi-la, era uma cerimónia pública. Nela, ele ajoelhava-se perante a sua senhora, colocava as mãos como que em oração e ela ía buscá-lo tomando as mãos dele nas suas e beijando-o. A propósito disto, ver Mosche Barasch e o livro "Giotto e a linguagem do Gesto". Entre as provas que o homem tinha de apresentar à dama, estavam - é claro - os versos e as cartas em que a Bela é tratada quase como Nossa Senhora nas Litanias. Ora vejamos:
Litanias da Virgem:
- Espelho da Justiça,
- Vaso espiritual,
- Rosa mística,
- Torre de marfim...
Títulos das damas da Idade Média:
- Espelho do Amor
- Rosa de Maio,
- Fonte de Felicidade,
- Doçura do Mel...

É pois assim que nasce o amor romântico, embora este não tivesse nada do romantismo que hoje conhecemos pois era unilateral e nem sempre havia sentimentos envolvidos a não ser o sentimento de obrigação do homem face à mulher. Com o tempo o amor romântico assim praticado foi tomando outra forma, já que os cavaleiros foram exagerando: por vezes surgiam para os torneios vestidos de forma que tornava impraticável o confronto, como por exemplo, com os olhos vendados ou armados de braceletes de ouro até aos cotovelos. Isto atingiu um tal nível, que em determinado momento, toda esta instituição admitiu a Beiliegen auf Glauben. E o que era isto? Isto era materializar o que até aí era só platónico. A recompensa da Beiliegen consistia em o cavaleiro dormir ao lado da sua dama por uma noite, sem ultrapassar os limites da decência nem colocar em causa a castidade da dama. Mas a gente bem sabe que, quem nunca comeu melaço, quando come se lambuza. E é bem provável que muita gente se lambuzasse. E sabemos também que quando começa a fartura, acaba-se o interesse. Há uma frase óptima para isso que aplico muitas vezes: post coitum, omne animalium triste est (pós coito, o homem é um animal triste). Logo logo os cavaleiros começaram a perceber que aquelas mulheres não eram deusas nem santas e que não mereciam aquela devoção até porque na maior parte dos casos ou eram cruéis, ou devassas.

Com o Renascimento, mais pragmático, o que era platónico tornou-se físico. Numa época aberta ao conhecimento, de que servia este sem a experiência? Desta forma, a veneração da mulher caiu em desuso, sendo recuperada mais tarde em nichos do continente europeu. O amor romântico, em que a mulher tinha os seus admiradores ressurgiu em França no século XVII, mas de forma diferente. É agora no recato do palácio que as damas, as précieuses, recebem os seus admiradores e estes já não têm de desembainhar as suas armas para conquistarem os favores das eleitas. Agora o trabalho é o do intelecto, do espírito, das conversas elevadas. As conversas eram de tal forma esteticizadas que certos termos foram banidos por serem considerados demasiado vulgares. Assim, a palavra "mão" foi substituída por la belle mouvant, a palavra "espelho" foi substituída pela expressão le conseilleur des Grâces e a "cadeira de braços" foi trocada por commodité de la conversation. Entendê-los devia ser impossível...

Este fenómeno voltou a surgir em Génova, no século XVIII com os cicisbeos. Estes eram galanteadores que se ocupavam da dama em causa e de tudo o que lhe dizia respeito: um ajudava-a na rotina matinal, outro acompanhava-a aos ofícios religiosos, outro levava-a a festas, outro tratava da gestão das suas posses... Este hábito generalizou-se de tal forma que todas as mulheres passaram a querer ter o seu cicisbeo e todos os homens desejaram ser um. A diferença entre o cicisbeo e o cavaleiro da Idade Média, é que este último raramente podia gozar da companhia da dama a sós enquanto os primeiros se encontravam sempre com a dama e com a anuência do marido desta. Aliás, quando se discutiam os contratos de casamento, discutia-se e determinava-se também quantos cicisbeos podia uma dama ter enquanto casada. 

Acho que com a Revolução Francesa, que procurou a igualdade e trouxe para a linha da frente da luta política algumas mulheres, esta veneração pelas damas esmoreceu. É que a referida veneração só existia e só tinha razão de existir enquanto a mulher fosse um ser passível, um ser sem opinião, sem gostos. A partir do momento em que a mulher se afirma, de que lhe serve alguém que lhe diga que ela é apreciada, ainda para mais se essa apreciação é paternalista? O que nos interessa que alguém nos aprecie como a um bibelot se nos trata como tal, se não é capaz de discutir ideias, de aceitar as nossas e ver as suas serem discutidas também? Claro que para os homens tudo isto foi sendo, gradualmente, uma grande mudança. Se ao homem já não cabe o papel de protector das damas - papel esse que lhes é/era ensinado desde o berço -, o que lhes cabe? Acho que nem 8 nem 80. Continuem a levar-nos a casa; fica bem. Continuem a oferecer-se para pagarem o primeiro jantar. Também fica bem. Mas não nos respeitem por sermos mulheres. Respeitem-nos porque somos seres humanos.
- o carteiro -

[1]
para quem quer perceber como funciona o mercado de arte. Enfim, para quem quer perceber como funciona o mercado. (link)

[2]
para quem, como eu, gostaria de trabalhar no MoMA (ou no MET, não sou esquisita). São oito partes. (link)

[3]
para quem por vezes não sabe o que dizer face a uma obra de arte que não lhe diz "meia" (aqui)

quarta-feira, novembro 22, 2017

- original soundtrack -





















Tudo era apenas uma brincadeira
E foi crescendo, crescendo, me absorvendo
E de repente eu me vi assim
Completamente seu

Vi a minha força amarrada no seu passo
Vi que sem você não há caminho, eu não me acho
Vi um grande amor gritar dentro de mim
Como eu sonhei um dia

Quando o meu mundo era mais mundo
E todo mundo admitia
Uma mudança muito estranha
Mais pureza, mais carinho, mais calma, mais alegria
No meu jeito de me dar

Quando a canção se fez mais clara e mais sentida
Quando a poesia realmente fez folia em minha vida
Você veio me falar dessa paixão inesperada
Por outra pessoa

Mas não tem revolta, não
Eu só quero que você se encontre
Ter saudade até que é bom
É melhor que caminhar vazio
A esperança é um dom
Que eu tenho em mim,
Eu tenho sim
Não tem desespero não
Você me ensinou milhões de coisas
Tenho um sonho em minhas mãos
Amanhã será um novo dia
Certamente eu vou ser mais feliz

(Sonhos, Peninha, interpretado por Caetano Veloso)
- não vai mais vinho para essa mesa -





 
- o carteiro -

 Esta é uma da das três versões que Van Gogh pintou do seu quarto, em Arles. As versões distinguem-se umas das outras pelos quadros dentro dos quadros, pelos quadros que estão na parede. E Van Gogh gostava tanto do seu trabalho que o descreveu pormenorizadamente em 13 cartas que trocou com o seu irmão Theo. Em nenhuma delas fala sobre o espelho em específico pelo que, depreendo, o espelho não fazia parte de nenhum ritual em especial. Talvez daí estar demasiado baixo, como um reflexo do seu "desleixo" face à sua imagem. Se o usava para aparar a barba, não sei, mas sei que, por um lado, grande parte dos homens tratava das suas pilosidades no barbeiro e, por outro, o número de objectos que nessa altura uma pessoa possuía era muito menor que ao de hoje em dia. O espelho podia ser um bem, um verdadeiro bem material.

Nas cartas dirigidas ao irmão, Van Gogh refere que o ângulo é propositadamente alterado de forma a evitar sombras e assim aproximar a sua pintura da pintura japonesa. E, acrescento eu, dissipar as sombras de uma recaída após o tratamento no hospital psiquiátrico. Talvez essa distorção propositada faça parecer o espelho mais baixo.

Não sei, é só um "suponhamos".


Van Gogh
Bedroom in Arles
1889
Musée d'Orsay, Paris
esse paternalismo é enternecedor...
e dispensável.

segunda-feira, novembro 20, 2017

- original sountrack -

Caro John Flores, este é o meu mindset actual. É curioso ver que o Sunday do Morrissey é o mesmo Domingo do Nelson Neide (o fastio, a acédia, a melancolia...). Já as manhãs de Domingo permitem o estiramento, o Sol na nuca, a preguiça abençoada com ou sem missinha. É como se o almoço de Domingo fosse a charneira entre a esperança e a falta dela.
Mas para já, Morrissey (só esta parte)...














Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey

(Everyday is like Sunday, Morrissey)
- não vai mais vinho para essa mesa -

novo episódio da série "Avaliando um livro pela capa":



































































e para não dizerem que sou mázinha, cá vai...



























 
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates


antes e depois ou como "sob-a-inflência-do-Morrissey-a-gente-até-descobre-umas-coisas-jeitosas" ou como "não-são-novidade-no-sentido-absoluto-mas-sempre-te-deu-algum-prazer", ou como "a-gente-tem-de-ter-prazer-em-alguma-coisa", ou como "que-seja-nisto".  pois é. boltamos ao japonesismo e aos impressionismo. Um bocadinho de cada nunca fez mal a ninguém. Quando no século XIX o Japão se abriu ao Ocidente (ou pelo menos o Ocidente acha que foi assim, que foi uma abertura por influência ocidental) enviou para esse mesmo Ocidente embaixadores que pudessem formar aqui uma imagem do que era aquilo lá. Vai daí, mandaram carregam barcos com o que de melhor sabem fazer e ordenaram que os mesmos fossem descarregados nas muitas Exposições Mundiais que o Ocidente fazia no século XIX. Ele era porcelanas, ele era sedas, biombos, telas. E esse Ocidente civilizado e farto, cansado de um modelo estético com o qual já não se identificava, sorveu até ao tutano o que lhe foi dado. O Japão trouxe a linha em vez da luz e sombra, deu um sentido decorativo aos motivos geométricos (veja-se o efeito das escamas do peixe), trouxe novos formatos (a mimetizar os rolos japoneses) e trouxe um novo entendimento e leitura das imagens, já que reduziu o número de planos (muito útil para as litografias publicitárias da época). Estas duas imagens, porém desarmam qualquer um. São um exemplo muito flagrante desta influência da cultura japonesa no Ocidente, já que na imagem de baixo vemos uma reprodução do elemento central da imagem de cima. Mas o mais engraçado é que isto não é uma rua de Paris ou que qualquer outra cidade europeia. Esta tela é o resultado de um fenómeno menos conhecido - mas pelos vistos, real - de passagem dos artistas europeus pelo Japão. Van Gogh, que muito se socorreu das soluções da arte japonesa para sua própria arte não foi ao Japão. Manet também não. Mas este moço, este Louis Dumoulin, foi e pelos vistos foi lá, que com a técnica impressionista, pintou uma cena totalmente japonesa (parece uma antítese, mas ele conseguiu). Bom, é outra forma de ver a influência do Japão na arte europeia do século XIX. beijinhos, durmam bem e cuidado com o papão.



















Utagawa Hiroshige
Suido bridge and Surugadai, from One Hundred Famous Views of Edo
1856-58


















Louis Dumoulin
Carp banners in Kyoto
1888
Museum of Fine Arts, Boston
- o carteiro -

talvez o espelho do quarto do Van Gogh não fosse para ele se barbear. Aliás, dos retratos que conhecemos de Van Gogh, ele está com barba, o que quer dizer que esse devia ser o seu "estado" habitual e que portanto, não se barbeava com frequência. Talvez fosse um espelho de trabalho ou simplesmente um objecto compunha bem o ambiente.

quarta-feira, novembro 15, 2017



terça-feira, novembro 14, 2017

adoro quando não respeitas os meus horários. sinto cá um tesão...

sexta-feira, novembro 10, 2017

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

(Álvaro de Campos, O que há em mim é sobretudo cansaço)

terça-feira, novembro 07, 2017

- o carteiro -



















Van Gogh
Fifteen Sunflowers in a Vase
1888
National Gallery, Londres

num deste dias, numa excepcional tarde de um Sábado de Setembro, quando as folhas já rodopiam no chão, mas o Sol está quente, tive de ir à igreja. todos nós, cristãos ou não, de livre vontade ou contrariados, convidados de primeira ordem ou penduras, temos, mais cedo ou mais tarde, e por via de um dos sete sacramentos aos quais somos chamados sem sabermos bem porquê, de ir à igreja. pois lá estava eu, no adro, à espera da hora - o Senhor tem o seu tempo - quando vejo sair, ainda inebriada pela festa e cega pelo Sol a Melinha, nubente, risonha e inconsequente.
 
A Melinha era uma miúda estouvada e pinchona que, entre os seus 14 e 16 anos frequentou lá a casa em virtude da maldita matemática. Era obesa e ruiva, gulosa, respondona e com tendência para sair da casca, tendência essa que crescia à medida que aumentava a distância da mãe. A mãe, ascética e draconiana, de evocação religiosa pronta na boca era uma daquelas mulheres rijas de corpo e cujas pernas eu imaginava sólidas, fibrosas, brancas e peludas, confesso. Vendia charcutaria no mercado, mas não raras as vezes o marido - um pau mandado de bigodinho aparado, mais baixo que a mulher, dado ao comentário e de pé ligeiro -, passeava entre o supermercado e a banca dos queijos sacos de plástico de onde acabavam por sair queijos adquiridos na grande superfície e vendidos, pelo dobro naquela banca de mercado. Tudo era caseiro, trabalhado por aquelas mãos que comem, oram e trabalham. Nada mais se pode fazer com as mãos, que esteja dentro dos limites da legalidade divina, que não comer, orar e trabalhar.
 
A Melinha crescida, no seu vestido de noiva era portentosa, bestial, e branca. O buço perlado, o peitilho rendado e alvo subia e descia, dando a conhecer um orgulho pelo seu Erlander (um folheto perdido no banco da igreja anunciava todo o programa da festa religiosa daquele enlace em que tanto os pais de um como de outro colocavam esperança: para netos, casa comprada a crédito, duas semanas de falatório na cidade e as boas graças de Deus aquando do Juízo Final. Havia mesmo a promessa da festa ser abrilhantada pelo próprio Senhor, em carne e osso, embora mais osso que carne). Os braços bamboleantes sacudiam o arroz, agitavam o véu, bramiam o bouquet, abraçavam todos. A mãe, vestida de preto como uma carpideira, olhava orgulhosa para aquele feito e rezava hossanas para que o sexo fosse somente com propósitos de procriação. Eu imaginava isto e imaginava a Melinha pinchona na intimidade. Sim, eu pecava em pensamento à porta da igreja. Imaginava até o pai, de bigode nivelado milimetricamente, ainda com a saca dos queijos na mão.
 
E já entrada na Igreja, fiquei a pensar na felicidade alheia, que é muito bonita e digna de registo. Dei também graças ao divino pelos Sábados à tarde, invenção supimpa de que gostava muito de usufruir mais amiúde, se faz favor. Obrigada. 

segunda-feira, novembro 06, 2017

- original soundtrack -

a minha Madonna é esta:











(...)

I've always been in love with you
I guess you've always known it's true
You took my love for granted, why oh why
The show is over, say good-bye

Say good-bye, say good-bye

Make them laugh, it comes so easy
When you get to the part
Where you're breaking my heart
Hide behind your smile,
All the world loves a clown (Just make 'em smile the whole world loves a clown)
Wish you well, I cannot stay
You deserve an award for the role that you played (Role that you played)
No more masquerade,
You're one lonely star (One lonely star and you don't know who you are)

(...)














(Take a Bow, Madonna)

- não vai mais vinho para essa mesa -

[no ginásio]
- olá boa noite.
- olá.
- 4061, acho eu!...
- sim, já dei entrada do seu número. posso dar-lhe uma palavra?
- ... sim...
- é que ontem tivemos uma queixa... dizem que faz muito barulho ao fazer ginástica.
- Muito barulho?
- Sim
- ... ah... quer dizer, gemo um bocado, mas nada que qualquer pessoa que faz musculação não faça. Todos os homens fazem isso, e a estas horas só estão homens a fazer musculação. Não percebo... Além disso isto não é um retiro budista: há a música, o barulho das máquinas... Mas olhe, desculpe.
- Por favor não fique aborrecida, só estou a transmitir uma mensagem.
- Eu sei, eu sei: "não mate o mensageiro, mate a mensagem". Vamos fazer antes assim: eu vou embora e passo a vir a outra hora em que esteja menos gente. Assim posso arfar à vontade que não incomodo ninguém.

e fui embora.
- o carteiro -

últimas aquisições:


















































































quarta-feira, outubro 25, 2017

- original soundtrack -

esta música tem três momentos de pura poesia. e vocês sabem: uma coisa é a rima e a outra a poesia.














E a solidão não erra
Se chamar o seu nome
Vai que nem uma luva


O coveiro que o diga
Quantas vezes se apoiou na enxada
E o coração que o conte
Quantas vezes já bateu p´ra nada


Mas é sempre a mesma história
Depois do primeiro assombro
Logo o corpo fica farto

(Balada da Rita, Sérgio Godinho)
- não vais mais vinho para essa mesa -






















 
- o carteiro -

ceci n'est pas de l'art

e sim, é irreversível. Muitos momentos marcaram a História da Arte: uns referem o papel do Renascimento, outros do Romantismo (eu defendo o Romantismo com a charneira para a Arte Moderna, já que o Romantismo introduz uma ideia sem a qual a Arte Moderna não teria prosperado: a ideia de "génio incompreendido". Dramática, mas eficaz)... Há porém uma teoria que defende que o momento de charneira da arte foi a segunda guerra mundial pois esta mudou a geografia da arte no mundo: até aí as tendências eram definidas na Europa e após a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos passaram a ditá-las. Esta tese, ensinada na escola, é corroborada (ainda que de forma totalmente subvertida) por documentos recentemente divulgados pela CIA nos quais é revelado o plano dos Estados Unidos para influenciar os intelectuais franceses  de esquerda no sentido de ver invertida a sua defesa do comunismo, uma vez que o comunismo era o regime em vigor na União Soviética, os seus arqui-inimigos. A ideia era controlar o seu "grau de comunismo" de forma a que o mundo civilizado não acreditasse que aquelas ideias poderiam vigorar num país que prosperava com a Guerra e que se transformava numa potência capitalista. Na era McCarthty, como agora, a esquerda - e o comunismo então! - eram vistos com maus olhos pela maioria dos americanos. Para além destes papéis há pouco tempo divulgados pela CIA, corre, desde os anos 90, a teoria de que a CIA não só tentou influenciar o pensamento político e filosófico do mundo ocidental, como também a arte. O que nos vendem - e que em parte é crível - é que após a Segunda Guerra Mundial a Europa estava tão destruída e os artistas haviam sido tão perseguidos e acossados, que somente a fuga para os EUA lhes proporcionaria a continuação da carreira com liberdade criativa. Mas há coisas que não batem certo:
- porque é que os movimentos pós segunda guerra mundial surgidos nos Estados Unidos não têm como mentores artistas europeus ali refugiados (Entre Jackson Pollock, Barnett Newman e Mark Rothko, só este último era filho de emigrantes: emigrantes russos que saíram do seu país natal nas vésperas da Primeira Guerra Mundial e não da Segunda)
- porque é que a Arte Moderna vinga num país que poucos anos antes a desprezava, sendo que o Presidente Truman chegou a dizer: Se isso é arte eu sou um Hotentot?

Este documento de 1995 avança a teoria de que foi a própria CIA que, numa tentativa de criar uma arte americana e colocá-la na vanguarda, promoveu a sua exportação para território europeu, bem como a sua disseminação na mente dos americanos mais relutantes. Vejamos o caso do Expressionismo Abstracto, totalmente desgarrado culturalmente de tudo, mesmo da realidade do país onde nasce e daquilo que o antecedeu. O Expressionismo Abstracto foi um movimento que colocou em evidência, mais do que o movimento em si, as personalidades. Foi um movimento promotor do génio individual em detrimento do grupo, um movimento que prosperou muito rapidamente (com exposições exportadas para a Europa quando a Europa estava a reconstruír-se e não possuía os meios para trazer até si exposições daquele calibre) e claro, um movimento que priveligiava a obra serial em detrimento da pequena produção pois a obra serial e de grandes dimensões tinha impacto num universo capitalista. E isto, é totalmente oposto ao que acontecia na União Soviética em que a arte era para e pelo grupo, para e pela comunidade; oposto ao que acontecia antes do hiato da Segunda Guerra Mundial em que a arte não tinha essa capacidade expansionista nem se interessava por isso (e isso não é mau. Aliás, esta ideia de que todos os artistas têm de ser geniais é estranha à essência da arte: os artistas têm de fazer arte. só isso. o génio serve o mercado da arte porque categoriza, hierarquiza e torna o mercado mais simples, mais fácil de entender). As grandes dimensões, as séries de pinturas do Expressionismo Abstracto também não encontram um antecedente naquilo que supostamente o antecedeu e lhe deu origem e que foi a afluência de hordas de artistas europeus a continente americano enquanto exilados de guerra, já que até aí o que víamos não era isso. Não tínhamos a arte moderna francesa a produzir em série e em grandes dimensões, à excepção de Picasso, mas Picasso foi uma excepção.

As primeiras tentativas de exportar o Expressionismo Abstracto foram mal sucedidas logo dentro das próprias fronteiras: a América não conseguia demarcar-se do rótulo de filistina que lhe tinha sido conferida pela União Soviética e era, devido ao extremo conservadorismo, um deserto artístico. A CIA cria então uma divisão, a  Propaganda Assets Inventory, responsável por controlar e editar dezenas de publicações culturais e é essa propaganda que permite mudar mentalidades e colocar o Expressionismo Abstracto na ordem do dia e dentro dos museus americanos. E isto não foi alcançado pelo valor artístico real do movimento, mas antes pelas influências políticas e económicas. Senão vejamos: o primeiro museu americano a dar uma oportunidade ao movimento foi o MoMA, fundado pela família Rockfeller. No conselho de membros do mesmo museu sentou-se William Paley, presidente da CBS e membro fundador da CIA; John Hay Whitney que se sentou nas reuniões da CIA como nas do MoMA, ou Tom Braden que chefiou uma das divisões da CIA e foi secretário executivo do museu em 1949.

Tudo isto pode ser especulação, mas coloca-nos no lugar onde estamos hoje e se esse lugar não é o balde do lixo nem o caos - a arte contemporânea nem sequer chega aí - é certamente do "pointless". Muito se escreveu, muito se irá escrever acerca da arte contemporânea e do seu afastamento do público. A minha visão é, segundo os moldes de hoje, muito careta, mas isso não nos afasta do ponto onde estamos. Não refiro casos ou artistas em concreto pois isso é corroborar a ideia de artista Pop-Star que a mim enoja. Refiro a desorientação do público em exposições, à procura dos papéis que lhe digam o que pensar, o que sentir ante esta ou aquela obra, refiro a sobranceria com que as instituições apresentam obras herméticas (daí, e cada vez mais, os artistas enquanto curadores e enquanto críticos do seu próprio trabalho o que faz deles super-homens e subverte a separação que, pelo menos na teoria, deveria existir entre quem produz e quem pensa a arte). Refiro discussões bizantinas como a da liberdade de expressão versus a moral, ou a liberdade de expressão versus a vida humana e/ou a animal. Refiro a falta de profissionais que se dediquem ao seu trabalho em vez de pensarem em glória, posteridade ou mesmo um jantar de borla. Refiro o vazio de ideias do discurso sobre a criação artística, um vazio que envergonha e que se repete sempre a partir da mesma fórmula: 1) citação filosófica, 2) descrição do observado (qualquer um de nós pode fazê-lo), 3) relação à posteriori. Refiro a futilidade associada ao interesse pela arte, em que esta é vista como mais um asset a referir no perfil de uma rede social, como uma mais valia da qual as pessoas se servem e que está ao mesmo nível  da prática de desporto ou a solidariedade. E como veio, na maior parte dos casos irá. Mas já nada será como antes. Em França, por exemplo, discute-se neste momento se o mercado de arte não deveria ser liberalizado; ou seja, se em vez de intermediários, artistas e público se conectassem e assim fizessem negócio. Penso que tendemos para isso. Penso também que não se tem pensado a arte contemporânea a não ser por exemplos muito específicos e não no todo. E isto não é por culpa do chamado Fim da História da Arte. Conforme vemos, a História não morreu. O que anda ligado à máquina é mesmo a Arte.
- não vai mais vinho para essa mesa -

I

















 
II
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

















 





 
 

terça-feira, outubro 17, 2017

- o carteiro -

queria escrever, escrever a sério, mas não tenho tempo... deixo-vos isto