quarta-feira, janeiro 18, 2017

- original soundtrack -

"depois de teres aquilo que queres, deixas de querer aquilo que tens", cantado pela "mulher mais bela do mundo"




















After you get what you want, you don't want it
If I gave you the moon, you'd grow tired of it soon

You're like a baby
You want what you want when you want it
But after you are presented
With what you want, you're discontented

You're always wishing and wanting for something
When you get what you want
You don't want what you get

And tho' I sit upon your knee
You'll grow tired of me
'Cause after you get what you want
You don't want what you wanted at all

Changer Boy...
You've got a changeable nature
You're always, always changing your mind
There's a longing in your eye
Hard to satisfy and
Here's the reason why...

After you get what you want, you don't want it
If I gave you the moon, you'd grow tired of it soon

You're like a baby
You want what you want when you want it
But after you are presented
With what you want, you're discontented

You're always wishing and wanting for something
When you get what you want
You don't want what you get

And tho' I sit upon your knee
You'll grow tired of me
'Cause after you get what you want
You don't want what you wanted at all

Baby...
I don't mean to make you blue...
But you need a talkin' to...

'Cause after you get what you want
You don't want what you wanted at all...
I know you!

(After you get what you want you don't want it, Marilyn Monroe)
- não vai mais vinho para essa mesa -















































- o carteiro -

bem ai o frio para uma pessoa ficar com os mamilos em sentido! como não quero que bos falte nada, deixo-bos mais camisolas quentinhas (e cardadinhas - é uma private joke) para que não tinhaindes frio nas partes altas.

camisola para senhoras que gostam de colocar o lenço de pano na manga e usar chinelos de carneira:



















Kansai Yamamoto
1970-1980

para jovens com atitude e que pertencem à equipa de desporto lá do liceu (ah, espera, isto não é nos EUA)
Kansai Yamamoto
1980

para aqueles homens que visitam a tia aos domingos à tarde e comem tostas mistas feitas por ela, enquanto vêem os programas de variedades, já que agora não dá o MacGyver antigo (esse é que era bom...)



















Kansai Yamamoto
1980-1990

para senhoras que não têm problemas em revelar o seu lado animal 



















Kansai Yamamoto
1980

para frequentadoras assíduas de vernissages, finissages, cocktails, premières and so on 



















Kansai Yamamoto
1980

bi aqui




- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

"antes e depois" ou como gostava de compreender qual o encanto do Poussin. a sério que gostava. tive discussões com pessoas... conhecedoras... acerca do Poussin e não consegui compreender que que é que o Poussin possa ter sido importante. Ainda continua à procura de uma resposta nos livros, nos textos, já que nas imagens não encontro.

e o calor que não chega...

bem, hoje trago-vos o Ticiano e o Poussin. Por volta de 1520, Ticiano trabalhava para a corte de Ferrara, dominada pelos Este e, como bem o testemunha este quadro, estava "numa" de temas báquicos". Estávamos perante o Ticiano da fase "clássica" com cores ricas, vibrantes, mas poses formais. Aliás Ticiano não inventa nada de novo: a escolha das personagens, das suas expressões é fruto de textos clássicos (Ovído, por exemplo). A história desta tela é simples: Ariadne, filha do rei de Creta amava Teseu que ajudou a escapar da labirinto criado pelo seu pai (labirinto do Minotauro), através do fio de Ariadne. No entanto Teseu (esse grande ímpio), deixou-a, livrou-se dela na ilha de Naxos, quando estavam a regressar a Atenas. Aí, Ariadne tornou-se amante de Baco o que, ou diz muito da moça, ou da mitologia clássica em si... Nesta cena vemos Ariadne representada já com a coroa de estrelas (Corona Borealis), do lado esquerdo, numa pose que equilibra a de Baco, em total desalinho e desequilíbrio. A cena parece caótica com muita gente, mas é caótica pelo movimento exagerado dos corpos, todos eles em poses difíceis, em esforço.

















Ticiano
Bacchus and Ariadne
1520-22
National Gallery, Londres





















Ticiano
Bacchus and Ariadne (pormenor)
1520-22
National Gallery, Londres


Cerca de um século mais tarde o pintor francês Poussin vai buscar a mesma pose de Baco e adapata-a a outra personagem da mitologia clássica: Céfalo. A história é semelhante à de Baco e Ariadne: Aurosa, deusa da Madrugada - se assim lhe quisermos chamar, apaixona-se pelo mortal Céfalo e tenta seduzi-lo. Ele no entanto só consegue pensar na sua esposa Procris e rejeita a deusa. Até parece que lhe está a dizer "deslarga-me porca". Poussin usa aqui uma artimanha para justificar o repúdio de Céfalo face a Aurora: coloca o putti a segurar um retrato de Procris de forma a que o marido não possa esquecê-la, mesmo face às investidas de Aurora. De facto, este detalhe não está incluído numa das fontes literárias do tema: as Metamorfoses de Ovídio. Neste caso, a pose da personagem não está relacionada com a agitação, o vigor, a festa dos sentidos, mas antes com a repulsa e o desprezo, dois sentimentos pouco nobres para acabar este post. mas a vida é assim...














Poussin
Cephalus and Aurora
1630
National Gallery, Londres





















Poussin
Cephalus and Aurora (pormenor)
1630
National Gallery, Londres

- o carteiro -

este post começa de uma forma estranha, mas tem razão de ser.
Há duas práticas ancestrais que hoje continuam a ser levadas a cabo por nós, todos os dias e em todas as partes do mundo. Uma, a iconoclastia, é o fenómeno da destruição de imagens, fenómeno que ocorreu na formação do Cristianismo: os opositores à imagem com propósitos religiosos, destruíram-nas em muitas igrejas, principalmente na parte oriental do Império já que segundo o Antigo Testamento o crente não devia adorar outros deuses nem fazer imagens que os representassem. Por isso, quem era contra a reprodução da imagem divina, destruía-a como forma de expressar o seu descontentamento, não com o retratado, mas com a ideia. Hoje continuamos a fazer isso: quando algo acaba, rasgamos a fotografia dele/dela. Há até quem queime, mas isso soa-me a macumba. Rasgar a fotografia - ou queimá-la, para quem quiser ser mais radical - não elimina a pessoa da nossa cabeça e muito menos do coração, mas é um acto iconoclástico: ao fazermos isso estamos a dizer que eliminamos (ou que queremos eliminar) a pessoa da nossa vida. Neste caso manifestamo-nos contra a coisa retratada. E contra a ideia pois afinal, a ideia levou a uma ruptura.

A outra prática é o potlatch, típica de tribos nativas da América do Norte. (Penso até que os habitantes da Utopia de Thomas More a praticavam). Consiste em oferecer a uma pessoa uma série de bens de que ela no final da cerimónia se despoja, oferecendo-os a outras pessoas. No seu extremo, o potlatch pode levar à destruição dos bens. A pessoa que os destrói quer com este acto afirmar o seu estatuto social e a sua superioridade face a quem oferece e face aos bens em si.
E foi o que fiz... há uns meses comprei um souvenir.  Era uma caneca com a reprodução de um quadro de Van Gogh. Um pouco saturnino, mas acho que ninguém cria na alegria. E para além disso o Van Gogh é solar, mesmo quando é saturnino.


















Infelizmente nunca consegui entregar o presente e entretanto, o contexto mudou. Entregá-lo já não fazia sentido. Todos os dias passo pela caneca e todos os dias penso "o que é que te vou fazer?" Pensei em fazer como os iconoclastas de Bizâncio e partir a caneca. Mas não é isso que sinto. partir a caneca não iria mudar nada em mim; iria mudar na caneca. Por isso resolvi praticar potlatch em potência: arrumar a caneca num armário bem alto, lá atrás e esperar um dia descobri-la já sem este sentimento de perda no coração. será um reencontro sem saudade ou melancolia (espero!), com a cicatriz, mas sem a ferida.

segunda-feira, janeiro 16, 2017

- original soundtrack -





















Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender

Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso

Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a mascara sufocante

Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda feira

(Deixa-me rir, Jorge Palma)
- não vai mais vinho para essa mesa -

beluga - prepara-te para a massagem às pernas. dá-me só dez minutos.
mãe - ok.
beluga - mas atenção...
mãe - diz.
beluga - quero-te com a tua melhor roupa interior. hoje vou fazer de ti mulher.
mãe - tola!
beluga - alguém tem de ser. para equilibrar a balança do mundo.
- não vai mais vinho para essa mesa -


















- ars longa, vita brevis -
Hipócrates

momento "quem-dá-o-que-tem-a-mais-não-é-obrigado":

dizem que Ticiano gostava muito de dinheiro. Jacopo Bassano representou o pintor no seu quadro "Jesus a expulsar os vendilhões do templo". Podemos identifica-lo: com o gorro e a representar o chefe dos cambistas:














Jacopo Bassano
The Purification of the Temple
c. 1580
National Gallery, Londres


De facto, a figura de Ticiano no quadro de Bassano é muito semelhante ao retrato do pintor, feito por Orlando Fiacco.



















Orlando Fiacco
Portrait of Titian
Nationalmuseum , Estocolmo

Este "disse-que-disse" não faz - nem fez - do homem um avaro. Aos mesmo tempo que se dizia que gostava de dinheiro, também se reconhecia a sua generosidade. Vivia como um príncipe e gostava de tocar órgão. À falta de órgão, Veronese colocou-o a tocar violoncelo no "Casamento em Canaã".




















Veronese
The wedding at Cana
1563
Musée du Louvre, Paris


bou à minha bida.
- ars longa, vita brevis -
Hipócrates


você quer levar um par de estalos? - I










Karl Brjullov
The Last Day of Pompeii (pormenor)
1830-1833

você quer levar um par de estalos? - II








Ettore Tito
Con la rosa tra le labbra (pormenor)
1895

você quer levar um par de estalos? - III















Niccolo dell'Arca
Lamentation
1463-1490
Santa Maria della Vita, Bolonha

sexta-feira, janeiro 13, 2017


quarta-feira, janeiro 11, 2017

sou uma idiota. uma idiota chapada.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

ia escrever um post, pequeno. meia-dúzia de palavras, não mais. mas o dia de hoje deixou-me sem elas. 
- original soundtrack -

acho que este não é o vídeo original. talvez nem exista vídeo original. mas a canção foi usada no documentário "Winged Migartion" e por isso parece-me que mesmo não sendo o vídeo oficial, possa ser o sugerido.












Across the oceans Across the seas,
 Over forests of blackened trees.
Through valleys so still we dare not breathe, 
To be by your side. 
Over the shifting desert plains, 
Across mountains all in flames.
Through howling winds and driving rains, 
To be by your side. 
Every mile and every year 
For every one a little tear.
I cannot explain this, 
Dear, I will not even try.

Into the night as the stars collide,
Across the borders that divide 
forests of stone standing petrified,
To be by your side. 
Every mile and every year, 
For every one a single tear.
I cannot explain this, Dear, 
I will not even try.

For I know one thing, 
Love comes on a wing.
For tonight I will be by your side.
 But tomorrow I will fly.

From the deepest ocean
To the highest peak,
Through the frontiers of your sleep.
Into the valley where we dare not speak, 
To be by your side. 
Across the endless wilderness 
Where all the beasts bow down their heads.
Darling I will never rest 
Till I am by your side. 
Every mile and every year, 
Time and Distance disappear 
I cannot explain this.
Dear No, I will not even try.

For I know one thing, 
Love comes on a wing 
And tonight I will be by your side.
But tomorrow I will fly 
Away, 
Love rises with the day 
And tonight I may be by your side.
But tomorrow I will fly, 
Tomorrow I will fly, 
Tomorrow I will fly.
(To be by your side, Nick Cave)
- não vai mais vinho para essa mesa -

recebi um email da Mercearia do Prazer que eu pensei ser uma mercearia gourmet. Só depois é que percebi que não...
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como "se um Degas engana muita gente, um Degas e um Picasso elucidam muito mais. Fala-se sobre a vida sexual de Degas. Quer dizer, não é que eu fale disso com as minhas amigas, mas em relação ao artista impressionista, fala-se sobre a sua vida sexual. Não se sabe que tenha sido casado, ou sequer tido casos amorosos, mas sabe-se que pintou mulheres incessantemente: a tratar da roupa, após o banho, a dançar ou mesmo a seduzir. Veja a propósito disto este livro e a quantidade de imagens de Degas acerca deste tema. Os coetâneos dele disseram-no incapaz de amar uma mulher ou até sensível ao ponto de sentir que a vida sexual poderia retirar-lhe tempo e ânimo para o trabalho. Van Gogh, que o admirava disse que não conseguia ter uma ereção e sofria com isso. Não sei como é que o Van Gogh poderia saber uma coisas dessas e nem quero pensar nisso (lagarto, lagarto, lagarto). Certo, certo é que a obra deste celibatário (casto e virgem, desconheço) despertou o interesse de um homem, um artista, que de casto, puro, virgem e abstémio não tinha nada. O seu nome: Picasso. Ao que parece, não lhe faltava auto-confiança nem auto-estima. Um dia aproximou-se de uma jovem, bela (claro) e terá dito: "O meu nome é Picasso, gostei de si, quero desenhá-la". O que faltava a um, tinha o outro com fartura. Quer dizer, isto sou eu a dizer. Talvez Degas não fosse assim um homem tão tímido como fazem crer os registos que da vida dele chegaram até nós. E nem sempre a timidez é impeditiva de chegar tão longe quanto os outros, no que às relações amorosas e/ou sexuais diz respeito. 

Bom, mas isto para dizer que Picasso viu em Degas e no seu desenho algo. Talvez não fosse o génio de Degas, já que esse parece ter tido importância apenas para os que se lhe seguiram de imediato, como Van Gogh. Cézanne por exemplo é muito mais importante para gerações futuras que Degas, ainda que Degas e Cezanne pertençam a gerações diferentes. O que quero dizer com isto, é que se existisse um podium para as influências que Picasso sofreu, Degas talvez não figurasse no mesmo. Ao contrário de Cézanne, cuja influência abrangeu muitos dos seus sucessores, Degas tocou talvez menos artistas. Isto não lhe retira o mérito. Nenhum mesmo. Admiro nele a paleta (com cores que parecem erradas e dão uma atmosfera irreal aos quadros - vejam-se as pinturas das mulheres no banho), o tratamento do feminino com grande expressividade dos corpos (mais nas mulheres que passam a ferro do que nas bailarinas, confesso) e uma certa "paz poder", uma tensão qualquer, uma violência encoberta que o momento captado surpreende e esconde. 

É nas mulheres a trabalhar que pego: nas mulheres que passam a ferro, ou tratam da roupa. Quem passa a ferro, sabe que há gestos, poses involuntárias, expressões que são típicas. E ele captou-as muito bem. O Picasso também deve ter percebido isso. Depois de ter apresentado este antes e depois, descobri que há um outro antes e depois envolvendo Degas, Picasso e as mulheres que engomam. Ora vejam lá:

















Degas
Laundress 
1868-1878
Norton Simon Museum























Pablo Picasso
La Repasseuse
1904
Guggenheim Museum, Nova Iorque

Obviamente, existe aqui algo a que não podemos ser alheios: esta pose só se justifica com os ferros a carvão que davam um trabalhão desgraçado: fazer brasas (ou manter o lume para obter brasas), colocá-las no ferro, limpar tudo para não manchar a roupa... Devia ser dose... Talvez a primeira mulher esteja cansada e a segunda, derrotada, não sei. Mas acho que o Picasso atribuía a isto um qualquer valor que não era só técnico.

Estava com saudades de posts destes. Embora não tenha descoberto as minas de sabão amarelo... 
- o  carteiro -

um dos meus maiores problemas é não conseguir dizer "não". Faço grandes fretes e apanho secas monumentais só porque tenho receio de magoar as outras pessoas, dizendo-lhes que não: não faço, não vou, não quero... enfim. às vezes quando o dia acaba sinto-me tão cansada... como se tivesse corrido a Badwater. claro que é preciso ter uma grande paciência, calma, disponibilidade. Ser, como se costuma dizer, "uma santa". è também costume dizer-se "para seres santo só te falta a auréola". Ora eu, que não sou santa, devo dizer que para se ser santo não é necessário ter a auréola, mas antes o nimbo. fixem isto:
- a auréola, ou mandorla, é a linha que envolve as personagens divinas ou humanas.
- o nimbo é o halo - que pode assumir várias formas - e que destaca a cabeça das personagens divinas ou humanas.

a auréola está para o corpo como o nimbo para a cabeça:



















Giotto
Last Judgment (pormenor)
1306
Cappella Scrovegni (Arena Chapel), Pádua



Embora se trate de coisas diferentes, a auréola e o nimbo contribuem para a deificação, a glorificação e apoteose de quem o usa. Quando juntos, colocam a personagem em glória.

O termo grego para nimbo está na origem de outras palavras como "chover", "nevar", "molhar"... mas também da palavra "nuvem". Segundo Virgílio a nuvem era a "carruagem dos deuses". Se funcionava para o mundo pagão, acredito que funcionasse para o mundo cristão. Isidoro de Sevilha definia o nimbo como uma travessa de ouro, cosida no véu e usada pelas mulheres na testa ("Nimbus est fascíola transversa ex auro, assuta linteo, quod est in fronte foeminarum"). É provável que o bispo de Sevilha tivesse sido confundido por Plauto que na sua peça Poenulus colocou um dos servos a referir-se a uma dama por quem o seu mestre estava apaixonado, desta forma:

"Quam magis aspecto, tam magis est nimbata" / Quanto mais olho para ela, mais radiante (nimbé) ela me parece.

Assim à primeira, parece que "o cu não tem nada a ver com as calças". Mas esta descrição, observação do servo, tem alguma semelhança com outras descrições de senhoras por parte dos poetas clássicos. Petrónio usa o termo "frons mínima" para falar de uma dama romana no Satiricon, Horácio fala de Lycoris e da sua testa baixa ("insignis fronte tenui") e Arnobius, no seu Tratado da Natureza da Alma, refere uma mulher que quiser agradar deve tornar a sua fronte mais baixa, através do uso de uma fita na testa. Tudo junto pode ter confundido Isidoro de Sevilha.

O nimbo pode assumir diversas formas. Pode ser circular (o mais comum) - neste caso o nimbo tem várias filas de "pedras preciosas" e o nome "Karolvs Magnvs Rex" escrito em volta -














Carlos Magno
Catedral de Notre Dame, Estrasburgo

transparente:



















Raffaello Sanzio
Disputation of the Holy Sacrament (La Disputa)
1510-11
Stanza della Segnatura, Palazzi Pontifici, Vaticano


opaco (um caso muito negro...)



















Giotto di Bondone
No. 29 Scenes from the Life of Christ: 13. Last Supper (pormenor)
1304-06
Cappella Scrovegni (Arena Chapel), Pádua


 triangular

















Girolamo dai Libri
God the Father with His Right Hand Raised and Blessing
1555

quadrado


















Papa Pascoal I
820
Santa Prassede, Roma

poligonal

















Bernardo Daddi
Crucifixion (pormenor)
1345-48
Lindenau-Museum, Altenburg


















Simone Camaldolese
The Divine Comedy by Dante Alighieri (Folio 11)
1386-88
Rare Book and Manuscript Library, Yale University, New Haven


em forma de raios
















Master of Flémalle
Virgin and Child in an Interior
c. 1435
National Gallery, Londres


em forma cruz (penso que neste caso só mesmo o Filho de Deus usa este tipo de nimbo):



















Christ Pantocrator
950-1000
The Fitzwilliam Museum, Cambridge


Há, claro, outras formas, não aplicadas somente a personagens do Cristianismo, mas a figuras do Politeísmo como o Deus Sol. Têm, como se compreende, um nimbo em forma de raio, muito semelhante ao que acontecia em alguma numismática clássica.




















Helios
Templo de Atena em Tróia
300 a.C.
Museu de Pérgamo



Esta forma (raiada) foi também a escolhida para representar alguns símbolos gnósticos com esta. Trata-se de uma figura entre o Mundo material e o imaterial(ladeada pelo Sol e pela Lua), que é tanto terrestre devido à cabeça de Leão, como aquática devido à cauda de serpente e divina graças ao nimbo com 14 raios.




















Gravura
Bernard de Montfaucon
L'antiquité expliquée et représentée en figures


Como foi dito acima, nimbo e auréola não eram apanágio das figuras divinas, podendo também ser usados pelos humanos notáveis. No geral, e na iconografia pagã, o nimbo é um atributo da divindade, mas foi também usado na representação de imperadores e reis, feiticeiras e profetisas (sim, no feminino), figuras das constelações e do bem e do mal (como acontece no Budismo e no Hinduísmo). O nimbo usado por um santo ou por um mortal a quem tenha sido dada essa honra - certamente devido a algum feito - é simples, sem qualquer ornamento. Se estamos a falar de um nimbo na cabeça de Deus ou do seu filho, o caso já muda de figura (como vimos acima, esse nimbo poderia ser uma cruz). O mais curioso é que antes mesmo da altura em que o nimbo foi adoptado já havia esta ideia de coroar o filho de Cristo. Se não directamente, de forma indirecta. Veja-se o caso de um sarcófago existente no Vaticano, referente aos primeiros tempos do Cristianismo, em que Jesus imberbe surge acompanhado de seis ovelhas e seis apóstolos (as ovelhas eram também apóstolos). Um pouco mais elevado que as restantes personagens, Jesus surge com uma ovelha a seu lado: nenhum animal ou humano possui nimbo, nem o próprio Cristo. Mas a ovelha que o acompanha possui sobre a cabeça uma cruz que é, para estes primeiros tempos, o antecedente do nimbo. No caso do filho de Deus, o nimbo com a cruz inserida, pode conter as letras gregas ο (Omicron), ω (Ómega) e ν (Nu), como é o caso da figura abaixo. Nela o ómicron está à esquerda, o ómega em cima e o nu à direita. Estas três letras formam parte da expressão "Eu sou aquele que sou" que Deus usou para se manifestar a Moisés na passagem relativa à sarça ardente (Êxodo 3, 14).

















Frangos Katelanos
Dormição da Virgem (pormenor)
1548
Varlaam monastery, Meteora, Grécia

Para a próxima há mais. Hoje já chega.

- o carteiro -

[1]
A Art Gallery of Ontario apresentou uma exposição de pequenas caixas de madeira do século XVI, em miniatura, ricamente trabalhadas. Algumas cabem na palma da mão e o seu grau de pormenor não é perceptível a olho nu. Deixo aqui uma imagem e o link para o projecto:

[2]
Em Setembro de 1951 Veneza assistiu ao Bal Oriental, o primeiro evento social pós II Guerra Mundial. A festa, baseada no quadro de Tiepolo "O banquete de Cleópatra", contou com nomes da sociedade parisiense (Dalí foi vestido por Dior e Dior foi vestido por Dalí. Pierre Cardin lançou-se aí desenhando muitos dos fatos dos convidados), do cinema e da realeza.
Giovanni Battista Tiepolo
The Banquet of Cleopatra
1743-50
Palazzo Labia, Veneza

Cecil Beaton
Daisy Fellowes e James Caffery posam frente ao quadro de Tiepolo

[3]
John Berger (que faleceu esta semana) + Susan Sontag (que já morreu há mais tempo, de quem a ana não gosta e eu, sim) = To tell a story








sexta-feira, janeiro 06, 2017

- o carteiro -

estou com problemas no computador e escrever tem sido uma aventura. uma aventura como a de Sísifo
quando no meu trabalho me tratam por "a miúda"

[- pergunte à miúda! não é verdade?
- ...é...]

até tenho vontade de me mutilar com folhas A4 de papel Navigator.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

beluga - vá, não penses nisso.
beluga - há dias assim. ainda por cima sonhei, esta noite, que ía a caminho da União Soviética, de comboio, para uma consulta ao cancro da mama. é a segunda vez que sonho que tenho cancro da mama.
beluga - credo! tens de ser benzida!. Faz um esforço para não pensares nisso.
beluga - pareces a margarida rebelo pinto e aquele livro dela "o dia em que me esqueci de ti". É qualquer coisa assim... se ela se lembra do dia em que se esqueceu dele, então é porque não o esqueceu, certo? Que título ridículo!
beluga - chiça, que chata! Olha, então não faças nada, espera que passe.
estive a ler um livro sobre os campos de trabalho soviéticos. depois fiquei a pensar que eram diferentes dos campos de extermínio nazis, mas ainda assim, indesculpáveis. e que defender uma ideologia quando em comparação com a outra, faccioso. a minha cabeça por dentro está como a da medusa por fora...

terça-feira, janeiro 03, 2017

só para tapar o post anterior (não tive tempo para mais)


















Van Gogh
Almond Blossom
1890
Van Gogh Museum, Amesterdão

segunda-feira, janeiro 02, 2017

- não vai mais vinho para essa mesa -




















sábado, dezembro 31, 2016

 - original soundtrack -

para lá de bonito:














 
(Ombra mai fu, da ópera Xerxes de Handel)
- ars longa, vita brevis -
hipócrates

antes e depois ou como sou "muita" burra, "muita" asna! como é que nunca tinha reparado nisto, como? anos e anos a ver livros de arte, a ir a museus a ler coisas interessantes e só há uns dias, na cama, a ver um livro e à espera do sono é que descobri isto:

















Jan van Eyck
The Virgin of Chancellor Rolin
1436
Musée du Louvre, Paris


















Rogier van der Weyden
St Luke Drawing a Portrait of the Madonna
1450
Museum of Fine Arts, Boston

Tomem o quadro do van der Weyden e apliquem-lhe uma rotação sobre um eixo vertical:

















Digam lá se não fica parecido com o quadro do Van Eyck. O quadro do Van Eyck foi a fonte para o quadro do van der Weyden, disso não há dúvidas, embora se trate de temáticas diferentes. E isso agrada-me: uma coisa era usar o mesmo modelo para a mesma temática; outra diferente é usar o mesmo modelo para um tema de natureza diferente. Enquanto o Van Eyck coloca a Virgem com o menino ao colo, frente ao Chanceler Rollin (que encomendou a obra), numa loggia ao estilo italiano, aberta para um jardim através de colunata e daí para uma paisagem flamenga na qual se destaca o casario à direita, o rio em frente e as duas personagens de costas, van der Weyden elimina a coroação da Virgem, coloca-a a amamentar o Menino, troca a arcada pelo trílito e substitui o Chanceler Rollin por São Lucas, o retratista da Virgem e protector dos artistas. Na minha muito modesta opinião, o traço do Van Eyck tem uma maturidade e delicadeza que o de van der Weyden não tem embora a pintura de van der Weyden seja posterior à de Van Eyck. Li algures que van der Weyden articula melhor que van Eyck, os planos, mas veja-se o rosto da Virgem ou mesmo o Menino: em Van Eyck ele tem naturalidade, em van der Weyden está hirto, parece um boneco.  

Convém lembrar que tanto uma como outra pintura se enquadram numa nova forma de ver a relação do crente com Cristo, denominada devotio moderna e que defendia que a aproximação entre o crente e o divino se devia fazer através da representação desse divino, no ambiente do dia-a-dia. Daí a pormenorização, os traços identificadores das personagens não divinas, algo que é apanágio da pintura flamenga deste período, por oposição aos traços estereotipados, tipificados, da pintura italiana da mesma época. Van Eyck trabalha tudo: brocados, capitéis, vitrais, jóias, ladrilhos... Van der weyden fica-se pelo baldaquino do lado da Virgem e os ladrilhos. Tanto o pequeno jardim que separa a loggia da varanda, como a paisagem para além desta, apresentam-se mais áridos, menos fervilhantes e vívidos, o que é uma pena, mas se compreende. O quadro pintado por van Eyck foi encomendado por um homem poderoso que queria com esta encomenda mostrar o seu poder, mas também "assegurar" o seu lugar junto do Altíssimo aquando do Juízo Final. É um quadro que serve o seu marketing pessoal. Já o quadro de van der Weyden, mais modesto, não tem a quem agradar a não ser ao crente. A mensagem que transmite é religiosa e não política e por isso não necessita de se socorrer dos artifícios da política.

Beijos e portem-se bem.